Desperdício

Por: Roberto de Paula Barbosa

Sol a pino abrasando as mãos calosas que agarram avidamente os guatambus, em cujas extremidades inferiores as lâminas das enxadas mondavam chircas, inços, tiriricas e toda espécie de macegas e ervas daninhas, estavam, um em cada eito, o Zé da Cirila, um pouco à frente, o Mané das Cobras a seguir e, por último o Allan Kardec, que o pai kardecista resolvera homenagear.
 
Eles estavam há algumas horas nessa azáfama, pois a tarefa deveria ser cumprida até o término daquele dia, quando deram uma pequena parada, apoiando o queixo sobre a mão espalmada na ponta do cabo da enxada, aproveitando para olhar o bando de maritacas que voavam por sobre suas cabeças, num estrepitar alvorotado.
 
Allan Kardec, vendo ao seu lado um formigueiro de lava-pés, mexe sorrateiramente com a enxada o monte de terra fina, que escurece com a movimentação das moradoras ferozes e ágeis. Ainda com a enxada pega um bocado dessa terra e, sem que o Mané das Cobras perceba, despeja-a aos seus calcanhares e fica, dissimulado, olhando o bando de maritacas passar.
 
As formigas sobem rapidamente por sobre as botinas da pobre vítima, por dentro das barras das calças e, ao chegarem às canelas, Mané sente um fogo lamber suas pernas e começa a pular feito cabrito novo que acaba de mamar à farta. Não é necessário dizer que Allan e o Zé da Cirila, este, depois de entender o que estava se passando, quase mijaram nas calças de tanto rir.
 
Após arrancar as botinas e as calças e bater as mãos sobre os pés, sapateando, até a última mordedeira soltar a pele fina de suas pernas, o Mané olha para seu algoz, o Allan Kardec que ria debochadamente, e diz:
 
_Eita! Que nome mais desperdiçado que ponharam nocê!
 
 
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor
 
 

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