Anoitecer - a hora mágica!

Por: Everton de Paula

O dia fora estafante. De repente, meu mundo entrou nos eixos. Chegara a hora encantada, quando pedimos o que queremos no sossego da varanda, quando lavamos as mãos para o jantar, quando os papais aparecem, quando os bebês tomam banho, quando a família se reúne em torno da mesa. Talvez esta seja uma imagem retida na minha memória, nada contemporânea, mas literatura é para essas coisas mesmo!
 
Enfim o anoitecer, uma hora de ternura. Nem sei por que esse breve momento ainda me encanta, como me encantou a vida inteira. Paralisa-me os sentidos, acalma meus temores e me anima o espírito. Sinto-me ousado ao anoitecer, porém desarmado. O que é diferente do amanhecer, quando, após o banho revigorante e o forte café, você se arma até os dentes e vai à luta. Ao anoitecer, você descansa as armas e coloca o espírito nas mãos  da natureza.
 
O anoitecer é a hora da volta ao lar, uma hora em que nos sentimos deliciosamente famintos e ansiosos pelo jantar.
 
Nessa hora, um simples passeio a pé pelos quarteirões da vizinhança assume um clima de expectativa. Ainda hoje levo comigo o hábito de passear quando anoitece. Através das janelas iluminadas, todo mundo parece estar se aprontando para alguma coisa. Diante do espelho, a adolescente ajeita a franja sobre a testa. Na sala da frente, um menino coloca mais uma peçazinha do quebra-cabeça enquanto o pai lê ou relê alguma coisa no jornal. Durante isto, quase esquecida, a encantadora e derradeira luz do dia reflete-se no asfalto molhado da chuva de verão. Se demorarmos um pouquinho mais olhando o chão, quando olhamos para o céu outra vez, a luz desapareceu. Acendem-se as lâmpadas dos postes.
 
Sair... Ir a algum lugar e encontrar-se com a noite.
 
Quando éramos crianças... Que felicidade sair correndo de casa para brincar ao anoitecer. À medida que escurecia, as brincadeiras ficavam encantadoramente mais difíceis, e as histórias que os adultos nos contavam iam aos poucos ganhando dimensões assustadoras.
 
No final de outono surgem os vaga-lumes. E começava a caçada. Correndo e gritando, faces acariciadas pelo ar já frio, meninos e meninas perguntavam, para cima e para baixo: “Apanhou um?” “Apanhei mais do que você!”
 
Havia uma professora no primário. Certa vez pediu à classe uma redação. O título era “O anoitecer”. Uma garota, quando leu sua composição, disse: “Adoro o perfume do pôr-do-sol!” E essa frase estranha ficou na minha mente. Procurei então sentir todos os odores durante esse momento. Nunca mais poderei esquecer os aromas que marcam as estações do ano ao cair da noite. De certo frescor de terra molhada, em março, quando o ar tem um quê de fragrância. Saudade das fumaças das fogueiras, tão longe, que chegavam até nós no outono, flutuando pela cidade. Do sabor cortante do inverno, quando o céu fica salpicado de roxo e brilha como um bloco de gelo.
 
Anoitecer no inverno. Parece ser este o melhor de todos, o mais perfumado. Mas o mais bonito é o pôr-do-sol em janeiro. Pena que veio o horário de verão para atrapalhar o nosso ponto de vista.
 
Li num romance, cujo título me esqueceu, uma frase que guardei: “A nordeste, uma luminosidade sinuosa verde-prata palpitava e tremia suavemente. O dia estava morrendo, a noite nascendo, mas com grande paz.” No instante dessa leitura, lembro-me de que eu não podia duvidar da união do homem com o Universo. Veio-me a convicção de que deve haver um propósito no todo, e de que o homem é parte deste propósito.
 
No azul incomensurável do crepúsculo, vislumbramos, talvez, um mistério e um sentido que transcendem a rotação desta terra rodopiante e banal em que vivemos. 
 
 
Everton de Paula, Academia Francana de Letras
 
 
 

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