Fim

Por: Ronaldo Silva

Eu pensei que nada mais sentiria,
que em nada mais pensaria
quando descessem sobre meu corpo frio
a tampa definitiva do caixão.
 
Mas não foi assim, não.
 
Senti mais, infinitamente mais,
que a solidão úmida da casa definitiva
E que o cheiro do derradeiro jardim,
tão morto quanto meu cadáver.
 
E conjecturei muito mais
que a nulidade do meu futuro, 
que a impotência dos planos
e a esterilidade dos sonhos.
 
Senti a vontade desenfreada
de tudo o que eu permiti que me negassem.
Senti a eclosão insólita e já inútil da vida.
O imã de tudo quanto ficara de fora
da minha limitada casa de madeira.
 
Senti a dolorosa ausência
das mulheres que não amei;
dos carinhos que não ofereci;
das pessoas as quais não fiz felizes.
 
Tive uma imensa vontade
dos abraços que não dei,
das bocas que não beijei.
 
Desejei loucamente recuperar
as carícias que recusei
e aquelas das quais me esquivei.
 
Pensei...
Nas palavras que não pronunciei;
Nas canções que não compus;
Nos poemas que não escrevi;
Nos amigos que não fiz.
 
Achei que fosse chorar
consoante as lágrimas que pingavam
sobre o teto impermeável da casa-esquife.
 
Entretanto meus olhos,
esbugalhados de espanto,
vidrados da morte irrefutável,
haviam secado para sempre.
 
Fui, então, conduzido ao Purgatório,
pagar o preço da vida que não vivi.
 
 
Ronaldo Silva, vendedor,  universitário

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