Senta, vovô!

Por: Chiachiri Filho

Meus olhos nunca foram bons. Tinha uma miopia alta, muito alta, que me atrapalhava ver as coisas com nitidez. Por isso mesmo eu pensava que nenhum mal maior pudesse atacar as minhas vistas. A miopia era o suficiente.  Porém, como dizem, desgraça pouca é bobagem, faltava a cegueira para completar o mau funcionamento de minha visão. E ela veio. Veio de uma hora para outra. Veio no momento em que eu mais precisava dos meus olhos. Eu tinha tudo para desesperar-me. Contudo, aguentei firme e aos poucos fui enfrentando a desgraça ao invés de ser por ela dominado. Não foi fácil, prezado leitor. Não foi fácil não. Aos poucos, fui controlando o desespero e vencendo a cegueira. Hoje, para mim, as coisas têm cor e forma e as pessoas têm suas fisionomias próprias. Sem dúvida, são criações de um cego que aprendeu a ver com a luz de seu espírito.
 
Não sei o que é pior: o cadeirante, o surdo-mudo ou o cego. O surdo-mudo não pode estabelecer uma conversação normal. O cadeirante não pode andar. O cego pode andar, falar, correr, conversar. Porém, ele perde o rumo no meio das trevas que o cercam.
 
Aprendi a andar com a bengala. Ela é muito útil. Evita tropeços e trombadas. Contudo,  prefiro muito mais a mão, o braço ou o ombro de uma pessoa amiga. A bengala não fala. Ela é seca e fria. As pessoas que nos acompanham falam, discutem, trocam ideias e enriquecem a nossa vida. Dos ombros amigos, prefiro aqueles macios, perfumados e sem pelos, os quais não poderiam ser tocados se eu não fosse um ceguinho comportado.
 
Dias atrás, meu prezado leitor, aconteceu-me um fato extraordinário, muito mais emocionante do que apoiar a minha mão nos ombros macios, frescos desnudados e lisos das moças que, por vezes, me dão a honra e o prazer de sua companhia. Dias atrás, uma mãozinha pequenininha, mão de boneca, mão de uma menininha cuja altura ia pouco acima do meu joelho, pegou a minha mãozona e, com muito cuidado, levou-me até à cadeira onde costumo sentar-me e com uma vozinha fina que mal sabe articular as palavras, disse-me, batendo com sua outra mãozinha no assento da cadeira:
 
- Senta, vovô!
 
Sentei-me e fui tomado de tal emoção que algumas lágrimas, lágrimas de felicidade e agradecimento, brotaram dos meus olhos  que, embora imprestáveis, ainda não perderam a capacidade de chorar.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras