Único amor

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Quando Dorinha nasceu, rosada e radiante, trouxe uma alegria nova para aquele lar e um motivo a mais a fortalecer o relacionamento do casal que estava um pouco arrefecido, logo nos primeiros anos de casamento. Crescia mimosa entre os percalços dos pais e quando ficou maior deu-se conta de que tinham se separado. Vivendo com um, ora com outro, sentia a animosidade entre eles que com o tempo só aumentava e tornava-se irracional. A relação tornara-se odiosa. Não podiam se encontrar sem que ofensas e malquereres fossem pronunciados. Dorinha foi, então, encaminhada para um colégio interno até formar-se professora e iniciar vida própria. Tinha-se transformado em uma linda jovem de cabelos loiros, cacheados, comunicativa, arguta, capaz de perceber rapidamente as coisas mais sutis.
 
O amor aconteceu quando encontrou um moço incrível, praticamente seu vizinho, estudante de faculdade, em outra cidade, e que, também, apaixonara-se por ela. Era um jovem esperançoso, firme em seus objetivos. Planos e planos foram feitos para a vida junto com seu amor. Afirmava que nunca iria se separar dele, pois tinha vivido, intensamente, as agruras de uma união desfeita. Mas a incerta existência humana é muito frágil e imprevisível e um acidente na rodovia acabou com suas ilusões. Seu namorado morrera e ela ficara só com sua dor incomensurável. O que Dorinha viveu e sentiu é um processo íntimo, individual e que não se pode avaliar. A dor alheia pode ser compartilhada, mas é impossível senti-la em sua essência.    
 
Vivido o período de luto era necessário reerguer-se. Adaptar-se a uma situação de impotência diante do mundo, com a perda de alguém amado, é muito difícil. Como recomeçar uma vida nova? Dorinha superou-se e teve uma vida pública ativa, não tão efetiva, pois viveu limitada por sua condição dolorosa e crônica. Sentia dores musculares, nos tendões e ligamentos, em diversos lugares do corpo, por longos períodos. Dias melhores outros menos, variando frequência e intensidade.
 
Dorinha entendia que sua vida seguiria assim. A sua alma estava plena, o seu amor fora um só e seria eterno, nunca se unira a outro; o seu corpo padecia até ela vencer sua passagem por esta humana vida.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 
 

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