Aprendizados

Por: Eny Miranda

Estou diante do teclado, em mais uma tentativa de compartilhamento (escrito) de emoções. Para que isso aconteça, é necessário trazer ao mundo visível o que é apenas sensível; fragmentar silêncios e vestir cada fragmento obtido com um traje diferente, o que significa dizer: incorporar tais fragmentos, um a um, em indivíduos-símbolos, denominados palavras. Essas palavras, encadeadas em sintaxe inteligível, serão transcritas na tela com fios retos e curvos, em pequenos segmentos - signos - a que olhos e cérebro humanos já se acostumaram, e cujos significados conhecem e compreendem. Mas, enquanto o pensamento voa, a nós, instrumentos carnais, ainda não se concederam asas. Entre mente e corpo existe uma distância cinética inimaginável.
 
Viajo entre seres imateriais e substâncias físicas; entre elementos imagéticos, muitas vezes, inefáveis, e sabidas estruturas musculares, nervosas e ósseas. Enquanto a alma caminha livre em espaço atemporal, aberto e amorfo, eu, bicho da terra, me arrasto lento entre antigas e tortuosas vias de um mundo rico de massas mensuráveis e ponderáveis e parco de verbo que se permita matéria linguística. 
 
Assim me encontro, como um Jano - em um só tronco, dois rostos que se opõem, voltados, cada um deles, para uma verdade, neste caso, a imaterial e a material - tentando unir o que é, ao mesmo tempo, gêmeo e antagônico, quando recebo de minha nora um vídeo. Nele, a netinha caçula, mês e meio de vida, vê os bichinhos coloridos de um móbile, girando lentamente acima de seu corpo, ao som de música suave. 
 
Agitando os braços estendidos, fletindo e esticando vigorosamente as perninhas, contraindo-se e alongando-se no berço, sorri e emite, com visível alegria, sons - ora bem agudos, ora graves quase guturais - ainda não catalogados como fonemas deste ou daquele idioma. Os olhos, muito abertos, brilham e se movimentam, captando a chegada de uma nova cor, de uma nova forma, de um novo susto: o estranhamento diante da novidade do mundo.
 
Atravessando terras e mares até chegar a mim, aquela sucessão de imagens em movimento é capaz do mais absoluto compartilhamento de emoções; capaz de me dizer sentimentos genuínos, de “escrever” ou descrever ou transcrever poemas inteiros, em linguagem livre da obviedade, da subjugação da rotina. Sem qualquer trama verbal normatizada em gramáticas, sem qualquer símbolo fonético ou signo linguístico descrito em compêndios, renomados ou não; sem teclados, sem palavras, sem sintaxes frasais, Nicole me diz claramente, na perfeição idiomática do prazer primeiro - elo de ligação entre as duas faces de (meu) Jano - a maravilha que é a descoberta da vida.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta, cronista, membro da Academia Francana de Letras
 
 

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