O questionário

Por: Everton de Paula

Ao amigo de infância e sempre, José Henrique Bettarello.
 
 
O ano era 1963. O mês, agosto; só não tem o dia. Afirmo essas datas com precisão porque estão escritas na capa do caderno.
 
É preciso que se diga: nesse ano as diversões dos adolescentes resumiam-se talvez a menos de uma dezena de atividades: nadar, andar de bicicleta, flertar, jogar futebol, banco imobiliário, ir ao cinema de domingo, pertencer à fanfarra da escola... Como se vê, eram mais atividades de meninos que meninas. Pobres coitadas: com 11, 12, 13 anos imagino-as, quando não na escola, em casa, perto da mãe ou na casa da tia aprendendo cozinhar ou, talvez, nas aulas de piano no conservatório musical. Algumas felizardas podiam ir ao Clube dos Bagres (só nas piscinas de baixo; a “grandona” ainda era perigosa) ou às matinês. Era de lascar. O aparelho de televisão fazia-se presente em poucos, raríssimos lares, e trazia imagens cheias de chuviscos. Dava dor de cabeça e tontura após a tentativa exaustiva de se assistir ao programa A Família Trapo, com Ronald Golias.
 
Sem TV, celular, computador, DVD, blue-ray, vídeos-game, Internet, jogos eletrônicos restavam as brincadeiras de rua e outros entretenimentos que inventávamos. Quer queira, quer não, os melhores momentos eram os que passávamos na escola, porque ali encontrávamos os colegas. A criatividade corria à solta, embora as sabatinas de Francês de Antonieta Barine e os solfejos de Lúcia Ceraso tirassem a gente do sério. 
 
As férias de julho haviam terminado. Entrávamos nas salas de aula do IETC, pela manhã, já com saudades das brincadeiras do mês que se acabara e atentos ao que viria à frente. Fui à Livraria São Sebastião, perto da escola, e comprei com minha mesada um caderno brochura de cinquenta páginas, na capa o “Avante, brasileiros!”.
 
Era costume, à época, elaborar um questionário (uma pergunta em cada nova página), com a lista em fileira dos amigos queridos para que eles respondessem e a gente, depois, passasse a ficar sabendo um pouco de suas preferências e antipatias. Era uma honra ser convidado a responder a esses questionários, uma vez que provava que éramos benquistos por uma parcela de colegas. E depois, o nome da gente ficaria eternizado naquelas páginas.
 
Caderno em mãos, sentei-me à sombra da frondosa mangueira no quintal de dona Olívia Correa Costa, esposa de Alfredo Henrique Costa, nosso vizinho. Somente alguns garotos do quarteirão tinham acesso a esse local de encher a vista. Eu era um deles.
 
Primeira tarefa: selecionar os nomes dos amigos e depois torcer para que eles não esnobassem a gente e dissessem algo parecido a “não, obrigado, não vou responder o seu questionário.” Mas, por enquanto, era só uma escolha de nomes. E lá estão eles: Regina Centofante, André Motta, ¶ngela Chereghine, Ozorinho, Marice Minervino, Denise Bortoleto, Godofredo, Toninho Vissoto, Fransérgio Garcia, Sebastião Miranda, Maria Luiza, Ana Maria, Messias, José Henrique Bettarello e, claro, o meu nome, que deveria aparecer em primeiro lugar.
 
Segunda tarefa: selecionar as perguntas. Essa era a parte mais prazerosa. Eis algumas perguntas que escolhi no ano de 1963: 1) qual sua idade e data de aniversário? 2) Qual sua cor preferida? 3) Que comida mais gosta? 4) Qual seu herói de gibi preferido? 5) De que professor você mais gosta? 6) Você está flertando com alguém? 7) Este questionário pode saber com quem? 8) Que filme você mais gostou? 9) De que música você mais gosta? 10) Para que time você torce? 11) Qual a sua religião? 12) Que matéria você mais gosta de estudar? 13) Qual o seu passatempo preferido? 14) Você tem animal de estimação em casa? Qual? 15) Qual o seu (sua) melhor amigo(a)? 16) Para qual tipo de pergunta você responderia “não”? 17) Deixe sua mensagem.
 
Como se pode ver, nenhuma questão que levasse à reflexão, à crítica. A inocência posta num caderno que talvez, sem que soubéssemos, serviria de testemunho nos bicudos tempos de hoje de como houve um tempo que valia a pena viver. Sem medo, sem aflições.
 
Corria-se o caderno de mão em mão. Alguns ficavam chateados por não terem sido lembrados, outros curiosíssimos para ver se estavam na lista de amigos preferidos, na lista de flertes, alguma referência qualquer.
 
Depois de quase um mês (cada um ficava com o caderno dois ou três dias para responder), a gente recebia as respostas de volta e passávamos a ter em mãos, sob nossa guarda, um dossiê “completo” que revelava certos perfis dos colegas mais estimados.
 
Ana Maria gostava da música “Marcianita”; Ozorinho era corinthiano; Maria Luiza gostava de viajar para a casa de uma tia em Ribeirão Preto, a fim de se encontrar com suas primas; André Mota gostava de basquete e natação, a mesma resposta de Toninho Vissoto e Fransérgio; eu marquei a escalação de ataque do Santos Futebol Clube: Dorval, Mengálvio, Coutinho, Pelé e Pepe. Na página em que se perguntava “Você está flertando com alguém”, curioso: todas as respostas foram um incisivo “Não!” Sebastião Miranda tinha um herói: Capitão Marvel (o meu era Flash Gordon). Godofredo recusou-se a citar um herói de gibi; não gostava de ficção, desde criança. Assim, apontou seu herói real: o ciclista Zuluaga (que merece uma crônica). Macarronada era o prato favorito. Os Dez Mandamentos o filme mais assistido. Todos eram católicos... E por aí vai.
 
Onde está este caderno? Aí é outra história que ainda contarei neste pedaço. Por enquanto, fico com uma surpresa: enquanto pensava que somente eu teria uma relíquia dessas, fico sabendo que José Henrique Bettarello tem um caderno de feitio parecido, com outros nomes e perguntas, é claro, de capa marrom, cujo primeiro nome é o meu. Imaginem o meu orgulho, que não acabou até hoje. Posso emprestar o meu caderno para quem quiser, só que tem que ler pertinho de mim, senão ele desaparece, eu sei dessas coisas. Agora, se o Betarello quiser trocar por dois dias de caderno, eu topo. Mas com testemunha e devolução!
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras

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