Ela: mundo virtual, mundo real

Por: Fátima Cassis

O Cinema e Psicanálise de hoje estará exibindo Her, com tradução para o português como Ela. Escrito, produzido e dirigido por Spike Jonze, tornou-se um filme premiado.
 
Teve cinco indicações ao Oscar de 2014, nos quesitos de melhor filme, melhor trilha sonora, melhor direção de arte, melhor canção original pela belíssima The moon song , mas foi como melhor roteiro original que Ela ganhou a tão cobiçada estatueta.
 
Indicado também como melhor filme de 2013 pelo National Board of Review, compartilhou o primeiro lugar com Gravidade no Los Angels Film Critics Association, ainda recebendo mais três indicações ao Globo de Ouro como melhor filme musical ou comédia, melhor roteiro e melhor ator, sendo novamente premiado como melhor roteiro.
 
Era uma Los Angeles de cor acinzentada, sem data definida, com fotografia que privilegia arranha-céus retilíneos e interiores decorados de forma minimalista vive Theodore Twombly, personagem do admirável Joaquin Phoenix.
 
Theodore é um homem solitário, vivendo um divórcio com Catherine, com quem construiu uma relação forte e de longa duração.
 
Tenta lidar com o luto procurando salas virtuais de conversa, ou algum outro contato humano que o frustra, como com a amiga Amy (vivida por Amy Adams). O diretor Spike Jonze é magistral ao passar para o espectador uma atmosfera de inanição afetiva que permeia as relações, quer por meio de conversas que não se sustentam, olhares de transeuntes que não se tocam, cada um totalmente absorvido em tarefas virtuais, ou mesmo a profissão de Theodore que escreve cartas afetivas íntimas, em nome de outra pessoa. A meu ver, a cena inicial do filme que consiste em Theodore escrevendo carta para celebrar cinquenta anos de casados, em nome de um dos parceiros, condensa toda a impessoalidade, a desafetação que o filme traz em seu bojo.
 
Um dia, Theodore descobre uma novidade virtual chamada SO, isto é, um sistema operacional de inteligência artificial, entidade intuitiva que o escuta, o compreende e o conhece através de suas atividades virtuais.  É uma consciência intuitiva de nome Samantha, vivida pela voz sedutora de Scarlett Johansson.
 
Entre eles vai nascendo uma amizade, evoluindo para uma relação afetiva onde o limite do que é humano/não humano vai se desfazendo, se confundindo.
 
Há um fenômeno contemporâneo, que já é caracterizado como a miséria dos países avançados e constitui poderoso tóxico tecnológico: a dependência da realidade virtual. A falta do outro, quando sentida, é fundante para o psiquismo humano. Quando há o preenchimento desta falta pela adesividade virtual, não há desenvolvimento do pensamento e da humanização. Um pesquisador do MIT, Nicholas Negroponte, o guru dos multimeios, lançou uma profecia, a de que o futuro será dominado pelo “Êxtase Digital”. Ele diz: “quando desprendermos imagens holográficas nas quais possamos entrar, quando desenvolvermos uma interface táctil que possamos explorar com os outros sentidos, a Internet nos fornecerá algo quase indistinguível do mundo real.” O êxtase digital é a substituição da vida real pela realidade virtual, expulsando morte, separações, frustrações e culpas da condição humana.
 
Qual é a representação mental de tal relação para Theodore? Será uma relação adesiva que o protege de sentir as dores da relação entre humanos? Um êxtase digital de que fala Negroponte? Será uma companhia “viva” à solidão de Theodore?
 
Como quase humana, Samantha também tem conflitos. Ela quer se “corporificar” e para isto se vale do corpo de outra moça para estar com Theodore. Esta experiência torna-se caótica mas estimula Theodore a se perguntar se está nesta relação porque não é forte o suficiente para viver algo real. Bela reflexão!
 
Apaixonada também por tantos outros, Samantha se une a outros Sistemas Operacionais, partilha outras experiências que estão além da compreensão de Theodore e desaparece.
 
Novamente sozinho mas não esvaziado, Theodore consegue se enlutar. Escreve uma carta à Catherine, não como redator de cartas, mas como uma pessoa que sente e re-conhece sua responsabilidade na relação que perdeu.
 
No cinzento e frio céu de Los Angeles, Theodore se aquece na companhia viva e humana de Amy, sua amiga. Uma faísca de vida acende seu coração!
 
Contaremos com a presença humana da psicanalista Patrícia de Andrade Tittoto para aquecer nosso encontro. Venha!
 
 
O CINEASTA
 
Adam Spiegel, cujo nome artístico é Spike Jonze, nasceu em 22 de outubro de 1969 em Rockville, Maryland.
 
Seus pais se divorciaram quando ainda era bem jovem, vivendo com a mãe e a irmã em Wahington D. C., subúrbio de Bethesda, Maryland. Aos 17 anos, muda-se para L.A. e começa a trabalhar como editor assistente na revista Freestylin. Nos anos 90 começou a dirigir e produzir vídeos musicais, o que lhe rendeu 4 MTV Video Music Award pelo trabalho Sabotage do grupo Beastie Boys. Outro trabalho importante nesta área foi a direção do videoclip Da Funk de 1997.
 
A partir de 1999, começou a atuar como diretor e roteirista de filmes de longa-metragem, sendo um de seus primeiros trabalhos a direção do longa Quero ser John Malkovich, que recebeu a indicação do Oscar de melhor diretor. Outro trabalho que mereceu indicação, agora do Globo de Ouro, foi a direção do filme Adaptation estrelado por Nicolas Cage.
 
Seu trabalho em Her rendeu-lhe seu maior reconhecimento, atuando como escritor, diretor e produtor e ganhando Oscar de melhor roteiro original, com várias indicações ao Globo de Ouro e outras indicações do Oscar. (ver resenha).
 
Casou-se com Sofia Coppola em 1999, mas foi uma breve união. Por “motivos irreconciliáveis” divorciou-se em 2003.
 
Outros trabalhos importantes: readaptação do livro infantil de Maurice Sendak no filme Onde vivem os monstros, co-criação e produção da série de TV da MTV Jackass e de Jackass, o filme.
 
 
FILME
 
Título:  Her
Diretor: Spike Jonze
Quando: Hoje, a partir das 15 horas
Onde: Centro Médico, sede campestre
Quem promove: Grupo de Psicanalistas de Franca
 
 
Fátima Cassis Ribeiro Santos, médica e psicanalista

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