Há 50 Anos

Por: Roberto de Paula Barbosa

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No dia 28/03/1965, num domingo, inaugurava-se a Ponte da Amizade, entre o Brasil e o Paraguai e eu estava lá. Quando começo a pensar sobre isso tenho que conformar-me de que estou ficando velho, mas faço com o maior prazer, para tentar afastar o fantasma daquele alemão que enlouquece muitos idosos por aí, um tal de Alzheimer. 
 
Trabalhava em um banco em Toledo, que fica a uns 150 km de Foz do Iguaçu, ambas no Paraná; naquela época o acesso era através de estradas de terra e, quando chovia, ficavam intransitáveis. Os funcionários, cerca de oito em um quadro de doze, aproximadamente, fretamos uma Kombi e fomos bem cedo assistir à cerimônia entre os Presidentes Castello Branco e Alfredo Stroessner. Foi uma grande festa cívica, com os hinos dos dois países, encontro dos dois presidentes sobre o meio da ponte e o corte da fita simbólica. Após a cerimônia, foi liberada a ponte para que todos a atravessassem, a pé ou de carro, em uma grande confraternização entre os brasileiros e paraguaios, com bandeiras e balões de todas as cores e muita alegria. Também atravessamo-la com a Kombi e, no lado paraguaio, embalados que estávamos pelo álcool das inúmeras cervejas, resolvemos dar um pulinho até Assunção, capital do Paraguai, que dista da ponte cerca de 330 km em rodovia simples asfaltada, naquela época. Combinado o preço com o motorista partimos imediatamente, parando para almoço, lanches, etc., até chegarmos à capital ao entardecer. Sem trocas de roupas, com pouco dinheiro, passeamos pelo centro da cidade e, quando já era tarde da noite, lembramos que teríamos que trabalhar no dia seguinte, pois os funcionários estávamos há quase quinhentos quilômetros de casa. Imediatamente iniciamos o retorno, suados e extenuados pela longa jornada. Às cinco horas da matina vimos os raios fulgurantes, com tons avermelhados e amarelos refletindo sobre os fiapos de nuvens que pairavam sobre o território brasileiro e resplandecendo nos arcos da bela ponte. Passamos tranquilamente pela alfândega paraguaia, mas ao chegarmos na brasileira fomos parados, revistados e inquiridos. Como a alfândega iniciava seus trabalhos, a revista foi implacável, embora nada houvesse de irregular, a não ser que viajáramos dentro do território paraguaio sem um visto sequer de turismo. Após as explicações de praxe, as autoridades não entendiam a enrascada em que nos metêramos e queriam nos reter por tempo indeterminado. Como eu havia trabalhado em Foz de Iguaçu alguns meses antes, fui liberado para buscar o gerente do banco e, às seis da manhã, ressonando, o Senhor Farias foi até a alfândega e, após umas duas horas de conversa, conseguiu nos liberar na base da amizade e com o jeitinho brasileiro. Depois foi apenas mais umas três horas de viagem até Toledo, chegando a tempo de abrir a agência do banco, sem o que não seria possível fazê-lo com apenas vinte por cento dos funcionários. Obrigado, Senhor Farias.
 
 
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor

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