Tipos populares

Por: Chiachiri Filho

A Praça Barão já não é a mesma de outros tempos.  Falta-lhe um pouco de movimento, de charme, de maledicência. Os cafés não ficam abertos pelas madrugadas. Dos bares e restaurantes que a rodeavam, só ficou um. O comércio do gado e dos diamantes (se é que ainda exista!) não tem a mesma intensidade de outrora. 
 
Sem dúvida, a Praça Barão já não é a mesma. Faltam-lhe até os tipos populares que a povoavam. A Maria Capotinha, por exemplo, estava sempre presente (durante o dia) na entrada lateral do Palacete Baronesa da Franca. Com seu invariável lenço na cabeça, envolta em seus casacos e xales, ela ficava com seu olhar perdido vendo a vida através da fumaça do seu cachimbinho. À noite, aparecia o Geraldo Pelotão pronto para atirar pedras em quem o chamasse pelo apelido.  Porém, era extremamente dócil quando alguém, lá de dentro do café Globo, chamava-o para falar por telefone com o administrador da sua fazenda do Araxá. Geraldo ficava um bom tempo numa conversa imaginária, indagando sobre o estado do rebanho e dando-lhe ordens para o devido cuidado com o gado. Evidentemente, o telefone não estava funcionando. Todavia, a imaginação de Geraldo viajava livre e solta nas esferas da riqueza e do poder.
 
Pela praça passavam ainda o Tonho Preto, a Luzia, o Pandeirinho, o Pedro do cemitério e muitos outros. Toinzinho-dá- um -Pulinho, sempre de chapéu, paletó e pés descalços, tinha hábitos diurnos e estava sempre pronto a dar uns pulinhos e beijar o poste tão logo lhe fosse solicitado.
 
Geraldo Vingador era um doido arrogante. Sério, compenetrado, estava sempre de chapéu, paletó e polainas. Era preciso conversar com ele para perceber o seu desequilíbrio mental. Geraldo Vingador, com seu jeitão de cantor de tango, declamava bem. Uma das suas poesias favoritas era A Louca de Albany, a qual declamava sempre trepado numa cadeira ou num caixote.
 
O calçadão, no meu entender, acabou com a Praça Barão. Despovoou-a. Pior ainda, tornou-a perigosa depois de certa hora da noite. Não é mais o ponto de encontro noturno dos homens de negócio. Perdeu o seu viço, as suas atrações. Ficou um pouco sem graça, sem alegria, sem os seus permanentes e adoráveis doidos.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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