Ousadia

Por: Isabel Fogaça

Quando meu tio Marcelo tornou-se apenas lembranças que eu gostava de ter, eu saía às ruas e me entristecia em perceber que o mundo insistia em girar apesar de minha dor latejar tão fortemente no coração. Neste contexto, eu assistia a mulher que carregava seus suprimentos da semana; o moço que faria clareamento dental para o casamento, e o senhor que tomava o ônibus para encontrar a namorada. E eu? Eu era apenas uma formiguinha que poderia me organizar como todas as outras se não houvesse a minha dor.
 
Talvez existam bons motivos para ser uma formiga neste vasto formigueiro: as construções necessitam ser terminadas, o pão precisa ser feito, e as crianças devem ser ensinadas sobre condições de ética e moralidade, mas todas estas regras, por mais justas que sejam, parecem absurdas, quando se é uma formiga solitária. Sempre há tanto esforço que todas as outras parecem esquecer de suas dores, pensei.
 
Dia desses, sentei ao lado de meu pai, e continuei a explanar mentalmente -apenas- minhas angústias sobre o mundo, quando ele me perguntou:
 
- Se eu lhe contar algo confidencial, promete não rir de mim?!
 
Os segredos que não podem ser engraçados acabam tendo certa graça e por isso ri antes que ele começasse, e mesmo assim ele continuou:
 
- Já faz um tempo, mas tem uma formiguinha no meu livro. Sempre que preciso girar a página, faço isso com todo carinho para não machucá-la, e como agradecimento ela me acompanha até a próxima página.
 
Acho que esta formiga, mais esperta que as outras, encontrou uma forma de não se sentir tão sozinha.
 
 
Isabel Fogaça, professora
 

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