Lapsos de memória

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Esta história não é inventada. Chegou-me através do filho de uma das personagens, meu amigo João Elísio de Carvalho. Infelizmente ele não poderá confirmá-la, pois já se foi há alguns anos.
 
O drama ocorreu na região de Cordisburgo, Minas Gerais, terra natal de meu amigo e também de outro João, este, sim, famoso: o escritor Guimarães Rosa. E aconteceu naquele  distante tempo em que as famílias eram numerosas -  tempo em que uma mulher ser mãe de doze, catorze filhos não causava qualquer espanto.
 
Um cidadão cujo nome escapa à minha memória, exagerara um pouco. Ele e a esposa eram pais de vinte e um filhos, todos vingados, segundo expressão da época para confirmar que todos os rebentos haviam sobrevivido às doenças da época.
 
O chefe de tão numerosa prole era mestre-sala. Seu trabalho consistia em percorrer sítios da região, a cavalo, alfabetizando crianças de variadas cores e idades. Era professor hábil e, assim, tornou-se, depois de anos, o indivíduo mais conhecido e um dos mais respeitados de toda a coletividade. Afinal, fora o responsável pela alfabetização de várias gerações.
 
Crianças aprenderam a ler, a escrever, cresceram, mudaram-se para a cidade grande, viraram padres, viraram médicos, viraram advogados, alguns até viraram professores. E o tempo passou.
 
Uma tarde-noite, o mestre-sala procurou, afobado, o pai de meu amigo. Estava meio transtornado. Sentou-se na banqueta de couro, na varanda, não esperou o cafezinho, nem deu tempo de o dono da casa enrolar o cigarro de palha. Desabafou:
 
- Compadre Saturnino, o senhor não vai acreditar. Que desgraça! Acabo de descobrir uma desgraça! O compadre vai acreditar que eu tenho um filho analfabeto?
 
O compadre engoliu o susto, pigarreou,  tentou, em vão, acalmar visitante. Afinal, eram filhos demais, era natural que se houvesse esquecido de um ou outro. Aliás, era quase milagre que se lembrasse dos nomes de tantos meninos. Em vão, as palavras de consolo do compadre. 
 
Lembro-me da história, penso nos meus constantes lapsos de memória.
 
Penso que meu caso é bem diferente: tenho filhos de menos, tenho anos demais. Por isso, se este texto já houver sido publicado, acho que convém que o jornal me aposente. 
 
Se possível, com aposentadoria integral.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 
 

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