Quisera

Por: Maria Luiza Salomão

Na conversa dificilmente usamos essa conjugação: o pretérito mais-que-perfeito. E por que “mais-que-perfeito” esse verbo que fala de um passado dentro de um passado? Pretérito Perfeito seria “eu quis”, não quero mais, acabou o querer, ponto final. 
 
Mais-que-perfeito é aquilo que eu queria, quereria, talvez ainda queira. Pretérito Imperfeito, queria: não quero mais? Talvez quisesse ainda? Não fica claro. Futuro do pretérito “eu quereria”, coisa condicional, clara hipótese, talvez. 
 
Quisera: eu quero ainda, eu queria, eu quereria? Tudo junto? Eu quisera: tive, um dia, um vislumbre de que talvez pudesse querer, talvez até conseguisse realizar, conservo em mim a saudade daquele meu querer, a vontade daquele meu querer. 
 
Quisera é lindo. Parente de quimera, de ligação com outrora, outra hora, outra aurora. 
 
Quisera ter sido, não sou mais? Quisera ser, não posso ser? Intenção passada e futura. Quisera diz do que, no presente, ainda diz: querer eu quero, mas como querer o meu querer? 
 
Como responder ao “quisera...”? 
 
Como abraçar o “quisera”, como fechar no passado o meu querer? Como interromper a promessa de querer no futuro? Como não mais aceitar condições para o meu querer, amanhã, outro dia?
 
Como fechar a conta do “quisera”? 
 
Quisera é temperado pela saudade, pela ausência. Quisera sou eu, em estado maior de devaneio. Eu, que escapo de mim. Quisera, mas não quis. Quisera, mas não quereria. Quisera, mas não podia querer, não consegui querer, não deixei de querer. Quisera...eu...quisera... 
 
Verbos são o diabo. Verbos são divinos. Verbos nuançam as ações interiores, os sentimentos, e exteriores, trazendo consequências. Verbos são o coração da língua. Verbos podem ser monossilábicos, defectivos (defeituosos como nós, humanos, nas conjugações do dia a dia), regulares, normóticos. Conjugados eles são a civilização em sofisticação elegante: o jugo é coletivo. 
 
Quisera é verbo que está além da minha mais perfeita imperfeição. 
 
Quisera eu poder escrever o que quis escrever, mas não quereria, não queria. 
 
Humildemente: não conseguira, não alcançara, não pudera, não devera escrever, mas quisera...
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras