Naquela alva toalha

Por: Eny Miranda

Crepusculava. O perfume chegou trazido por algum fiapo de brisa, e passou, deixando uma sensação inesperada, e conhecida, de juventude, tarde fresca, música suave... Então, aquelas mãos surgiram à minha frente: jovens, delicadas, unhas polidas - o esmalte quase branco... Nada mais. Busquei e rebusquei outro detalhe, em mil e um recantos da memória. Nada. Uma segunda exposição, brevíssima, ao mesmo aroma, trouxe-me novamente aquelas mãos. Desta vez, pude ver o anel: um fio de ouro cujas pontas se enlaçavam em corola, abrigando uma pérola. O dedo era o anular da mão esquerda. Havia também ali um sorriso boiando no ar. 
 
Esses pequenos fragmentos chegados ao presente em um sopro, aromático ou não, proustiana memória involuntária despertada, instigam-nos à compreensão das sensações que então nos invadem, e à busca do todo de onde tais fragmentos se desprenderam. O resgate voluntário do perdido no tempo, contudo, quando ocorre, demanda grande esforço. É como trazer à vigília um sonho fugidio que nos deixa sentimentos fortes, não imagens ou histórias conexas.
 
(Contudo, não posso dizer que nunca mais soube de onde vinham aquelas mãos. Isso me ocorreu bem depois, quando senti o mesmo perfume, em uma tarde de primavera. Além das mãos, surgiram um vestido de laise azul e vastos cabelos negros cobrindo ombros nus. Só então, o rosto: a noiva de meu irmão e ele, ao seu lado, sorrindo: instante festivo). 
 
Todos temos nossas madeleines, e eu, encantada com elas, não me furto a voltar ao tema, quando surpreendida por ele.
 
Pois bem, semana passada, recebi de uma amiga querida um presente proustiano. Entre adoráveis porções de memória viva, como a caixinha de doce caseiro, em madeira com tampa corrediça, coisa que não se vê mais, havia aquela sacolinha de organza, selada com fita e laço de cetim, contendo uma toalhinha de mão - trabalho artesanal em apliques de renda e passamanes de seda. Tudo muito branco, muito delicado e macio. 
 
Já ao primeiro olhar, a alma estremece. E me vem a sensação de alegria, de proximidade do sempre desejado. Vêm-me espaços familiares, cheiros familiares, mas não os identifico. Ao toque, surgem-me outras mãos: queridas, antigas, que se confundem com as minhas, na exploração dos detalhes, no reconhecimento do trabalho bem feito, perfeito. E então, aquela figura amada, sentada na cadeira da saleta, olhos postos no tecido felpudo que se vai encantando ao seu condão, com pontos e laçadas, em rendas ou crochês. Tudo muito branco, muito delicado e macio, como mamãe gostava que fosse. Quedo-me quieta, para que não fuja de mim este momento de prazer, este extraordinário instante, triz em que “[cesso] de me sentir medíocre, contingente, mortal.” Aberturas se anunciam em viagens intemporais e anespaciais, naquela pequena, alva, toalha.
 
Talvez, minha amiga, ao escolher esse presente, mesmo com sua peculiar sensibilidade, não adivinhasse que me traria, mais do que preciosas lembranças, um momento de ressurreição: o de minha Combray afetiva. Estou certa, porém, de que ela sabe: além do odor e do sabor, o olhar e o tato também são capazes de erigir “o edifício imenso da recordação.”
 
Agora me pergunto se existiria algum gesto, algum perfume, quem sabe, uma palavra: a madeleine capaz de erigir o edifício - este, imensurável - da gratidão.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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