Lugar para menino sentar

Por: Everton de Paula

Quando eu era criança, havia perto de casa, ao lado direito de quem hoje sobe a Avenida Presidente Vargas, logo no primeiro quarteirão, um ferreiro. Além de ferraduras para cavalos, consertava ou construía portões de ferro, gradis de carro, cofres antigos, peças miúdas e graúdas...
 
Bem, isso era uma coisa.
 
A outra é que, na quinta série primária, a professora dona Celeida pediu para nós desenharmos livremente o que nos viesse à cabeça. Eu desenhei, de memória, com o máximo de precisão que uma criança de 7 anos de idade possa conseguir, a oficina do ferreiro da Presidente Vargas. E nesse desenho, eu tracei um círculo num canto, junto daquilo que seria uma forja. Quando a professora me perguntou o que representava aquilo, respondi:
 
- Lugar para um menino sentar.
 
Ali um menino podia sentar-se e ficar vendo o ferreiro trabalhar, ouvindo a conversa dos homens, sonhando com fagulhas do fogo da forja que dançavam diante de seus olhos que, às vezes, se espantavam com o brilho instantâneo da solda.
 
Acho que poucos homens hoje podem relembrar o lugar para um menino  que ocuparam em alguma época passada, no começo de sua experiência. Talvez o lugar fosse em cima de um saco de cimento, ou de um saco de sal na parte dos fundos de um armazém de secos e molhados, ou “a cavalo” numa selaria, ou num toco de madeira em pé na serraria dos Carraro. Daquele ponto estratégico, à beira do mundo todo poderoso dos adultos, o menino ficava olhando, ouvindo e aprendendo. De vez em quando, pulava do seu lugar para fazer algum mandado. “Traga aqui aquela caixa, menino”, pedia alguém, e suas pequeninas mãos desajeitadas se tornavam fortes e cuidadosas para não deixar cair a caixa.
 
De um lugar assim podia ouvir os mexericos da cidade ainda pequena e decidir o que acreditar e o que rejeitar. Às vezes ouvia palavras e histórias que não eram para ouvidos de meninos. Mas aquilo fazia parte da tarefa cada vez maior de preferir o bom ao mau e o certo ao errado.
 
O lugar para um menino sentar é um importante degrau através do pântano dos processos humanos.
 
A simples observação dos fatos mostra que o número dos lugares para meninos sentarem tem diminuído de maneira alarmante através dos anos. Já se foi o tempo da oficina do ferreiro em muitas localidades; já se foi o tempo da selaria; a serraria já não existe mais na cidade.
 
Mas em alguma parte os meninos do nosso tempo precisam ter lugares para sentar à margem da experiência. A rotina e as regras eles aprendem na escola, mas certos recursos do raciocínio e do sentimento humanos podem nunca chegar a aprender se não tiverem a oportunidade de ocupar o lugar para um menino sentar.
 
Ah! – mais uma coisa: tenho plena convicção de que um celular não ensina mais que este lugar mágico que existiu num tempo que virou memória. Ao menos na formação do caráter.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras
 
 

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