Osman Lins, inovador literário

Por: Caio Porfirio

Morreu tão moço, aos cinquenta e três anos, vítima de câncer retal. Um cavalheiro, um gentleman. Tratava a todos com grande cordialidade. Nunca alterava a voz e a postura, o sorriso amigo iluminando-se sempre nos olhos azuis. Pernambucano de Vitória de Santo Antão, onde nasceu em 1924, Osman da Costa Lins, era de tipo físico que lembrava ascendência holandesa, que talvez nem possuísse. Separou-se da primeira esposa e filhos, veio para São Paulo, transferido do Banco do Brasil, onde exercia alta função, e aqui se casou com a escritora Julieta de Godoy Ladeira. 
 
Encontramo-nos pela primeira vez nos idos dos anos sessenta, na Livraria Francisco Alves, justamente no lançamento do livro de contos do escritor Jorge Medauar A Procissão e os Porcos. Eu do Ceará e ele de Pernambuco, travamos logo uma boa amizade. 
 
Escritor refinado, digno desse nome, preocupado com o valor das palavras e com o andamento formal de uma história, trabalhava seus textos exaustivamente e com grande cuidado. Mas aceitava, discutia e ouvia com atenção escritores de outras tendências literárias, como eu, que quando lancei meu livro de estréia Trapiá -, de contos regionais, até certo ponto superados no tempo, ele o saudou com elogios discretos e anteviu em mim palavras dele um grande contista ao longo da minha carreira. Só não gostava de folclore, embora nascido e criado num Estado riquíssimo no gênero. Repetia claramente:
 
- Folclore não me entra.
 
Lembro-me que um dia, numa viagem ao Rio de Janeiro, visitei, em companhia do escritor Henrique L. Alves, a Editora José Olímpio. Encontramos lá, por acaso, alguns escritores discutindo vivamente, entre eles Otto Lara Rezende e Ciro dos Anjos. É que havia um impasse: a comissão julgadora não chegava a uma decisão para o Prêmio José Olímpio de Literatura, se iria para Nove Novena, de Osman Lins, se para Veranico de Janeiro, de Bernardo Élis. Obras completamente diferentes e opostas em concepção, estrutura, linguagem, tudo. Nove Novena era uma inovação sofisticada. Não era livro para qualquer leitor. Veranico de Janeiro resistia e persistia em um regionalismo cáustico e meio satânico, marca do seu autor. 
 
Chegando a São Paulo, telefonei ao Osman:
 
- Rapaz, o teu livro está lá na José Olímpio numa luta feroz com um de contos do Bernardo Élis. Não sei o que vai sair dessa briga de foice no escuro.
 
Ouvi o seu riso:
 
- Está bem. Vamos esperar.
 
Ganhou o livro do Bernardo Élis. O Osman não demonstrou nenhum abatimento por isto. Sabia absorver com paciência filosófica qualquer golpe recebido. Tanto que numa visita de Bernardo Élis a São Paulo, no meio da conversa lhe perguntei:
 
- Quer conhecer o Osman Lins?
 
- Claro. Como é que eu faço?
 
Liguei para o Osman, no Banco do Brasil:
 
- Osman, sabe quem está comigo? O Bernardo Élis. Quer marcar encontro com você.
 
- Traga-o aqui agora, Caio. Espero vocês no corredor do quarto andar. 
 
- Vamos lá, Bernardo. O Osman está te esperando. 
 
Lá estava ele sozinho no grande corredor de gabinetes fechados. Abraçaram-se e sentamo-nos num conjunto de poltronas. Foi uma conversa longa e amigável entre os dois, que terminou com o convite do Osman:
 
- Vá amanhã no meu apartamento, à noite. Vou receber uns amigos. O Caio sabe onde é.
 
Era hábito do Osman realizar essas reuniões noturnas, com bebidas e salgadinhos. Eram freqüentadores constantes o José Paulo Paes, o José Geraldo Vieira e a Maria de Lourdes Teixeira. Osman mantinha com os dois últimos uma amizade afetiva. Reunia amigos das mais diversas tendências literárias, completamente diferentes da sua, só para um bate-papo descontraído. Neste ponto, era um escritor eclético, nada exclusivista. 
 
Mas o Bernardo Élis não pôde comparecer e ele lamentou muito.
 
Guardo do Osman, escritor famoso, respeitabilíssimo, além da amizade, a gratidão de citar o meu nome em todos os ensaios e artigos que publicou sobre o conto brasileiro.
 
Morreu com a mesma postura de escritor digno como viveu. Chegou a abandonar o seu emprego no Banco do Brasil e de professor na Universidade da cidade de Marília, interior do Estado, para se dedicar às letras em tempo integral. E, muito doente, perguntou ao médico de quantos dias de vida dispunha ainda porque precisava revisar uns originais.
 
Vi-o pela última vez, em Natal, em 1978, onde estive para a festa de entrega do Troféu Juca Pato ao folclorista Luís da Câmara Cascudo. Estava ele lá fazendo umas conferências e ficamos todos no mesmo hotel. Sabia já que o seu caso era irreversível. Pediu à Julieta para, na volta, passar em Vitória de Santo Antão. Queria rever sua cidade mais uma vez. E em Natal só conversou conosco sobre assuntos culturais, como se fosse viver mais trinta anos. 
 
Eu nunca conhecera uma criatura assim.
 
 
AVALOVARA
 
Osman Lins nasceu em Vitória do Santo Antão, filho de um alfaiate e de uma dona de casa, que morreu logo depois de seu nascimento. A ausência da mãe foi compensada por um círculo familiar de grande afetividade, liderado por sua avó paterna. Aos 16 anos de idade mudou-se para o Recife, onde ingressou no curso de finanças. Nesta época começou a trabalhar no Banco do Brasil. Posteriormente estudou dramaturgia na Universidade do Recife.
 
Sua estreia na ficção se deu em 1955, com a publicação do romance O Visitante. Dois anos depois publicou Os Gestos e em seguida O Fiel e a Pedra.
 
Sua primeira peça teatral a ser encenada foi Lisbela e o prisioneiro, adaptada com sucesso para o cinema em 2003.
 
No início dos anos 1960 viveu na Europa, como bolsista da Aliança Francesa. De volta ao Brasil, transferiu-se para São Paulo. Em 1964, já separado de sua primeira mulher, casou-se com a escritora Julieta de Godoy Ladeira. Publicou, em 1966, Nove, Novena (contos), Um Mundo Estagnado (ensaios) e mais uma peça de teatro, Guerra do Cansa-Cavalo.
 
Em 1973 publicou o enigmático Avalovara, traduzido para diversas línguas. É obra de arquitetura narrativa construída a partir de um palíndromo (o que se pode ler sem perda de sentido de trás para frente: sator arepo tenet opera rotas).Todos os capítulos são desenvolvidos a partir de uma espiral É também autor de Guerras sem Testemunhas, livro-tese, onde discorre sobre as atividades e os problemas enfrentados pelo escritor.
 
Seu último romance foi A Rainha dos Cárceres da Grécia, publicado em 1976, dois anos antes de sua morte. (SM)
 
 
Caio Porfirio, escritor,  crítico literário, conselheiro emérito da União Brasileira de Escritores

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