Pássara

Por: Vanessa Maranha

Suas penas vermelhas longas, rajadas de turquesa. 
 
Olhos pretos, brilhantes, havia iniquidade neles.
 
No todo, assim: a blusa espalhafatosa e olhos de desnudar, ela tomava a cabeceira da mesa e decidia o entorno, seguia além do aceitável, mas era a minha mãe, que duas vezes por ano ressurgia de algum inferno, vinha toda, muito enérgica, resolutiva, desdenhosa de quem estivesse ao meu lado.
 
-Apagadinha demais, definira assim a Clara e, dizê-lo, após todos os sinais de rejeição que deixava muito claros, era o quanto bastava para eu imediatamente desgostar de quem quer que estivesse ali.
 
 Mamãe não chegava a tocá-la, sequer a considerava, mas sempre a palavra definitiva. Regrava que eu não me envolvesse em política e que essa minha profissão de médico era desperdício de energia. Reservava-me adiante a glória, o herdeiro da sua riqueza de ente imortal, lamentando a minha mortalidade, defeito de engenharia, justo em mim, o seu único filho.
 
Era a mais poderosa de todas, seus ardis eu conhecia bem, mas Lígia interveio de um modo sem controle, chegou num dos hiatos em que a grande mulher dos penachos transmudados em blusa, a mulher-pássaro, enfim, essa minha mãe, seguia longe, ocupada com o que eu nunca soube.
 
Lígia deitou-se, paciente, no meu divã de psiquiatra. Tinha uma fragilidade rara, o desamparo pulsado pelo silêncio. Nenhum penacho visível, mas era eu mirar dentro rumo ao mais fundo dos seus olhos para neles me afundar, a moça cândida, algo de incorrupto e incorruptível nela. 
 
A compaixão que eu sentia pela Lígia, ouvindo tanta ausência e desvão, era a pena de quem já esteve em lugar semelhante, ainda que disfarçado de altivez e poder: as bruxarias grandiloqüentes da minha mãe.
 
Estava claro que a minha fundadora desdenharia, pois se era toda ela corrupção e ilusão encarnadas, talvez até se entediasse mesmo à bondade sofrida que em Lígia jamais compreenderia por não sabê-la traduzida em nenhum pedaço de si, por viver o anverso caudaloso do bem, no mal declarado, um seu escudo ou arma, enfim.
 
Que por ser avesso, houvera nela, sim, algum bem que aqui se diluíra todo, portanto, eu sabia que a mãe não aprovaria Lígia. Que do erro ela se alimentava, para então subjugar, mas, em nada Lígia me parecia errada.
 
Queria a pássara para mim algo da ordem do ímpio, em dimensões as maiores, viciosa, ela. Em breve pousaria a sua plumagem fascinante ao meu lado, eu sentia e queria-não-queria. Saudades das suas imensas asas que me faziam sombras e calor sempre difusos me guiando de volta ao seu grande ovo para ali eu me refazer noutra feição, à semelhança de sua imagem, enfim. Costumava dizer que a solidão fermentava a imbecilidade, a parvoíce estampada nos meus olhos, mas, jamais acenara algum amparo, melhor presença, qualquer constância.
 
Em Lígia, ainda invisível eu perscrutava a plumagem sedosa verde-azulada de colibri, jamais espalhafatosa, penas, então, num limiar muito próximo de vôo. E, então, fascinado, eu a abraçava indeciso entre contê-la ou impulsioná-la.
 
Chegou o dia em que, inebriado, desenrolei os meus afetos e me desloquei do papel de médico. Não podia mais cuidar dela, no divã, se a queria tão agudamente para mim. E, mesmo não sabendo do meu passado ovo, mesmo que sequer pudesse imaginar a potência da mãe que eu não lhe havia mostrado, tive medo. Um medo que subjuguei assim, sufocado no peito, subindo à garganta, se desfazendo a cada carícia que ela me estendia.
 
Começava a pensar na minha mãe-totem, tão ligeira e impermeável, mais imagem e desejo que realidade. A mãe que era-não-era, mas, que, tão solidamente se fazia presença em sua suntuosa ausência.
 
Que mundos seriam os seus? Onde os sobrevoos? Haveria remanso? Não saber era me lançar cada vez mais próximo e arremetido ao coração de Lígia e sentir-me quase bom. Lígia não compreenderia o litígio dentro de mim, os maus tratos e explosões que os conflitos eram capazes de gerar, varrendo para longe toda a delicadeza com que eu até então a tratava e, muito sofrida, se esgueiraria numa saída furtiva, amedrontada. Donde então voltaria a brilhar a grande pássara vermelha sempre longe, eu mais uma vez sozinho.
 
A menos que em mim os penachos finalmente despontassem, intensamente vermelhos, absolutamente asas.
 
 
Vanessa Maranha, Psicóloga, jornalista, escritora, autora de As Coisas da Vida, Cadernos Vermelhos, 807 dias e contagem regressiva

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras