Simplesmente Alice

Por: Jane Mahalem do Amaral

No dia 30 de março de 2015, ela chegou, minha terceira netinha. 
 
Alice, com seu jeitinho meigo e doce, parece mesmo ter vindo do país das maravilhas. Lá, onde estava ela, deve ser o reino verdadeiro, pois é o reino do Pai. Durante nove meses, Alice foi gestada, amorosamente, pela mamãe Tatiana, acolhida no coração do papai  Beto e banhada pela alegria da irmãzinha Gabriela. De lá, daquele lugar mágico, ela podia ouvir as vozes dos que a esperavam, conseguia escutar as cantigas da irmã e também podia sentir o carinho dos avós. 
 
A história, Alice no Pais das Maravilhas, de Lewis Carrol, publicada em 1865,  é uma das mais célebres da literatura infantil, não deixando porém, de levar-nos a uma leitura adulta, já que, por trás do todo o nonsense, a história propõe  difíceis enigmas e é povoada por absurdos, nome que costumamos dar à  maioria dos fatos do cotidiano que nos rodeiam. 
 
Tudo começa quando Alice segue o Coelho Branco, de colete,  que leva um relógio de bolso. Ela cai na toca do coelho e se depara com um poço muito profundo. A partir de então, Alice vai viver as mais estranhas aventuras, ao lado de personagens muito originais. Há a lagarta conselheira, o chapeleiro maluco, a lebre, o arganaz que é um tipo de roedor, a Rainha de Copas e muitos outros. Alice também vive situações inusitadas quando deseja passar por uma porta muito pequena e não consegue. Então ela vê uma garrafa que tem um rótulo escrito: Beba-me. Ela bebe o líquido e se torna bem pequenina, capaz de passar pela porta. Ao voltar, ela precisa crescer novamente. Então vê um bolo com as palavras Coma-me e, ao comê-lo, Alice cresce, mas fica enorme. Fica com dois metros e meio e, por não conseguir entrar no jardim, ela chora tanto que cria um lago de lágrimas.
 
A história de Alice, nos traz a lógica dos sonhos: imprevisível, absurda, improvável. No entanto, grandes estudiosos, como Freud e Jung,  nos pedem para não nos esquecermos dos nossos sonhos, pois eles têm muito a nos dizer.
 
Começo a vislumbrar o caminho da minha neta Alice: ela cai poço ao nascer e, nesse momento, o relógio do tempo que carregava o Coelho Branco começa a funcionar. É o  tempo de Alice. A partir daí ela vai conhecer muitas pessoas na sua vida. Algumas serão bondosas com ela e lhe darão conselhos para ajudá-la, outras, um pouco malucas ou maldosas, lhe farão propostas espertas para vê-la em apuros. Ainda outras, roedores que são, ficarão à espreita, procurando roer-lhe valores importantes. Muitas vezes, Alice ficará de frente a uma Rainha muito importante e vai ter que preservar sua identidade e fortalecer sua autoestima. Ah! Alice, minha neta, vai se ver também, inúmeras vezes, de frente a uma porta estreita e pequena e  terá que buscar soluções novas, com seu próprio esforço. Quando conseguir passar pelas dificuldades apresentadas pela vida, vai se sentir forte, grande, enorme por ter conseguido vencer o inusitado. Mas, nesse momento, poderá se embriagar pela grandeza e isso poderá levá-la a chorar um rio de lágrimas.
 
Alice, querida neta, sua travessia será como a de todos nós, seres humanos que habitam esse planeta. Algumas vezes sorrimos, outras choramos. Muitas vezes temos pontes para atravessar as dificuldades, outras vezes a coragem nos visita e temos  que pular abismos. Podemos até cair em poços profundos, mas sempre será preciso ter a certeza de que temos um Pai e que somos filhos muito amados. Você sabe disso, pois  acabou de chegar desse Amor Verdadeiro, desse País das Maravilhas, onde você habitava. Estaremos todos aqui, querida neta, para abençoá-la na sua travessia. Seja bem-vinda!
 
 
Jane Mahalem, escritora
 

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