Conservador

Por: Eny Miranda

Gosto de palavras. Sempre gostei. Uma atração que não se explica, sente-se. 
 
Bem pequena já as rodeava: no rádio, nos livros e revistas, nas conversas - principalmente as dos adultos, que costumavam tirar da cartola mil expressões novas a cada dia. Às vezes, curiosa; às vezes, ressabiada; quase sempre, apaixonada, envolvia-me nos sons que, ora me trazendo imagens conhecidas, ora se fechando em sésamo, invariavelmente prometiam novidades; enredava-me no labirinto dos traços que, enigmáticos, instigavam-me a viagens por caminhos desconhecidos, depois abertos a sonhos... ou a pesadelos.
 
Esse amor, ou vício, me persegue até hoje. Namoro vocábulos. Encanto-me com os laços com que se enlaçam a outros e outros de sua espécie, surpreendo-me com as tramas, as teias daí resultantes, e com sua capacidade infinita de recriar - e manipular - a vida. De vez em quando, elejo uma palavra e me ponho a apreciar suas mil faces e facetas: a sonoridade e a musicalidade, a grafia tempo afora, os significados, as afinidades, a origem - família, genealogias... E me espanto quando vejo as muitas mudanças por ela sofridas, ou me entristeço, quando descubro não as mudanças, mas o desprezo a ela imposto, a indiferença que a leva ao limbo, e até ao descarte, por descaso, desconhecimento ou preconceito. 
 
Por quê? Cismo.
 
Cinematógrafo, por exemplo, sofreu metamorfoses em direção à leveza. Palavra-borboleta, deixou o peso da longa e lenta lagarta para alcançar a agilidade do cinema e a concisão do cine. É bem verdade que isto nem sempre ocorre por amor à beleza estética, mas por preguiça do falante e do escrevente.
 
Hoje, a palavra conservador me pre-ocupa. Admito que não morro de amores pelo som das oxítonas terminadas em o fechado (seguidas ou não de consoante). Geralmente são secas, pesadas, desgraciosas, sem a menor possibilidade de voo (capô, gigolô, arigatô...). Presas da terra. Friso: aqui, refiro-me a som, não a significado. Voltando a conservador, observo que é um dos muitos vocábulos que vêm sofrendo discriminação por puro preconceito, linguístico ou não. Lançou-se sobre ele a praga da conotação pejorativa. Julgamento sumário. Daqui a pouco cairá no limbo, como tantos outros, ou será usado apenas nos xingamentos. Não é bela, certo, já que oxítona terminada em o(r), nem leve ou graciosa, a meu ver, pelo mesmo motivo, mas tem seu pedigree latino, que não deixa margem a dúvidas. Não sofreu, que eu saiba, qualquer hibridização. Como as madeiras de lei, nasceu e se conservou - braúna, peroba do campo. Vem de conservator.oris - o que conserva, guarda, respeita. Ora, há tantas coisas boas na vida a serem guardadas e respeitadas! Vida é memória. Quando se encontra um sítio arqueológico, é uma festa. Os antigos manuscritos de uma grande obra, com a grafia e os termos da época, outra festa. Quando se perdem relíquias, memórias físicas da história do mundo, uma lástima. Por que então essa implicância com certos vocábulos? Por que a antipatia pelo conservador?
 
Descubro que sou uma conservadora inveterada: das boas amizades, dos valores éticos, muitos dos quais se vêm perdendo, lamentavelmente, por equívocos da chamada cultura moderna, dos discos que me agradam, e dos livros, que me ensinaram este amor incorrigível à língua e ao poder de seus velhos vocábulos reunidos.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 

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