Palavras

Por: Everton de Paula

Não foi sem razão que um tal A. Roche disse esta trivialidade: “O conhecimento de uma língua se resume, em definitivo, em se saber de cor um grande número de frases”. Achamos engraçada e original a linguagem infantil porque, antes dos cinco anos, a criança ainda não decorou  tudo que usará decorado pela vida toda. Lembro-me das muitas frases originais que minhas filhas criaram naquela fase de travar a mais terrível e vã das lutas – a luta contra as palavras, no dizer de Carlos Drummond de Andrade. São criações delas:
Fantamas (= fantasma).
Papatela (= mamadeira)
Ir ao auspital (= hospital).
Embarcar na rovidoária (= rodoviária).
Vamos embória (=embora)
 
A Linguística chama a isso de “estranhamento”, responsável também por maravilhosas construções poéticas em que seus criadores dão sentidos novos a palavras e expressões do dia a dia. O estranhamento é a força e a originalidade da poesia, em verso ou não.
 
 
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Ainda por este motivo os estrangeiros parecem tão cômicos ao exprimirem-se em nossa língua, que eles não dominam inteiramente,  nem depois de longuíssima permanência no país. É que quase sempre quando se expressa em outro idioma, ainda se  pensa no idioma pátrio. Não temos noção de como é difícil lidar com as particularidades do português, especialmente o infinitivo pessoal, o futuro do subjuntivo e os verbos sem sujeito... Isso sem se falar nos casos especiais de concordância e de regência. Daí a afirmação, um tanto exagerada, de que uma pessoa pode dizer que domina bem uma língua estrangeira não quando pensa nela, mas quando sonha nela!
 
 
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As frases feitas e os provérbios – o máximo em matéria de condensação memorizada da sabedoria – dão margem a um sem-número de associações de ideias, que abrem imaginosos modos de combinações sonoras e de transformações arbitrárias de significados. Basta que haja a união de certa  habilidade no aproximar palavras e de um mínimo de acuidade intelectual para que se aprecie o resultado incomum, umas vezes cômico, outras chocante, outras ainda de enigmática profundidade. Alguns exemplos espirituosos:
Quem ri por último... é retardado.
Gato escaldado... morre.
Os últimos serão ... desclassificados.
Quem espera... fica louco da vida.
Depois da tempestade vem a ... gripe.
Se Maomé não vai à montanha... é que prefere a praia.
A frase feita “Quem dá aos pobres empresta a Deus” assumiu esta forma de alta ironia: “Quem dá aos pobres e empresta, adeus”.
O êxito na compreensão dessas notáveis tiradas está diretamente relacionado com o conhecimento da forma original delas e com a  captação do espírito que presidiu sua deturpação.
 
 
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A publicidade e a propaganda  levam a extremos os esforços de criação de frases chocantes, destinadas exatamente a chamar a atenção do ouvinte/leitor, desligado de tudo em meio ao constante bombardeio de mensagens a que se vê submetido na televisão, no rádio, nos jornais e revistas.
Há um site na internet que coleciona frases interessantíssimas, criadas por esses poetas da mídia que, por motivos ponderáveis, foram rejeitadas pelos anunciantes. Comentarei três  delas:
Conhecido slogan diz:
Volkswagen – você conhece, você confia.
Um desses poetas da mídia fez pequeníssima alteração:
Volkswagen – você conhece, você confiat...
Evidente que a montadora alemã nem quis saber dessa engenhosa e elogiosa referência à montadora italiana, sua grande rival no mercado do Brasil e do mundo.
Margarina Primor – uma delícia!
Delícia é nome de produto concorrente...
Não há quem não saiba o sentido das expressões pra burro (= qualquer coisa superlativamente considerada: chover pra burro, mulher feia pra burro) e pai dos burros (= dicionário, por resolver as dúvidas de quem ignora). Pois bem, um desses gênios da mídia colocou uma foto enorme da versão escolar do dicionário Aurélio  e apenas escreveu: Bom pra burro... Uniu as referências da expressão pra burro e da definição pai dos burros, mas a editora do dicionário também percebeu a conotação negativa de todas essas associações: aquele dicionário só seria destinado a pessoas de QI baixo?
 
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Tamanha preocupação com as repercussões negativas da mensagem tem sua razão de ser. Há muitos anos foi lançado no mercado brasileiro um sabonete internacional com forte cheiro de desinfetante – o Lifebuoy, literalmente  “a boia salva-vidas”. Traduziu-se também o que sua propaganda nos Estados Unidos dizia com sucesso: “O sabonete que combate o c.c. (cheiro de corpo)”, imitação do b.o. (body odor). Inesperadamente as vendas do produto despencaram no Brasil, apesar ou por causa da maciça propaganda em revistas e nas rádios. Seus usuários começaram a fazer uma associação que não havia sido prevista: quem compra Lifebuoy é porque tem c.c.... Ainda mais que “você não sente, mas os outros sim”... Tempos depois, o produto foi relançado, perdida a cor original (vermelho carregado), o cheiro de desinfetante  e a referência ao cheiro de corpo. Curiosamente até hoje o “c.c.” é empregado na linguagem coloquial e dicionarizado sob a forma cê-cê, sem que se relacione o termo com o tal sabonete. 
 
 
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Tem razão, pois, Cecília Meireles que, no Romanceiro da Inconfidência, tece longas considerações sobre a força das palavras. Começa assim o romance LIII ou das palavras aéreas:
 
Ai palavras, ai palavras,
Que estranha potência a vossa!
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras

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