Tipos de amor, jeitos de amar

Por: Sônia Machiavelli

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O amor, sentimento de alta complexidade que nos humaniza e se mostra irredutível a uma equação simples, inspirou escritores de todos os tempos. Com seus incontáveis matizes e mistérios, impertinências e abusos, precariedades e angústias, breves alegrias e fundas mágoas, também é tema da escritora Vanessa Maranha, autora da coletânea de contos premiada no II Prêmio Ufes de Literatura, Quando não somos mais, publicada no ano passado. Já no primeiro conto, Amor algum, nos alerta a narradora para a impossibilidade de traduzir de forma precisa o envolvimento simultâneo do protagonista com duas mulheres de físico e personalidade diferentes: “Como se fossem lineares as coisas do coração, como se pudéssemos, nesses limites, estabelecer contratos de linhas retas e claras”.
 
Igual às coisas do coração, também da ficção de Vanessa Maranha a linearidade é descartada por inútil no anseio de revelar verdades humanas, nunca epidérmicas. Seus personagens no livro em questão são homens e mulheres urbanos de diferentes idades, pertencentes à classe média brasileira, que agem e reagem uns em relação aos outros de forma nem sempre consciente, na maioria das vezes em conflito com seus desejos ou os do outro, e em confrontos desveladores de que “a ausência de demandas é algo inexistente entre os seres”, frase pinçada do conto de abertura.
 
Na sequência escolhida para compor o livro, situam-se Desviver, onde idosos chegam ao fim da vida em comum sem que tenham sequer esbarrado no conhecimento mútuo; Tel Aviv, construção amorosa virtual que não avança diante de um muro que o laconismo cimenta; Quatuor, joia formal, traz à cena dois casais em movimento de xadrez cujo final só ao leitor é permitido saber; Spleen, que perfila o amor difícil de dois homens diferentes mas íntimos - Fourier e Raul; Moderato Cantabile, onde a vida metódica da dona de casa Maria Alice esconde um turbilhão de insatisfações; Quando não somos mais, escolhido para nomear a coletânea, e que suscita profunda reflexão sobre a impermanência dos sentimentos e dos seres: “Caixa empoeirada que súbito se destapa, sem saber direito o que continua a ser e o que definitivamente acabou, vi saltar e desfilar diante dos olhos o inventário daqueles que pelo meu trajeto haviam passado. Tudo breve e intenso.(...) e tudo não ia além da emoção do momento- o que passou não é mais, o que virá se tolda por ainda não ser mais que abstração, projeto inconcluso ou morte anunciada”. 
 
Breves e intensos são também todos os contos deste livro que faz um estudo do amor ancorado em outros sentimentos, nunca em estado puro ou garantia de exata definição: forma gasosa que mal apreendemos, logo se transforma e nos surpreende como em Joel, história na qual a atração entre dois homens parece se desdobrar a partir de uma presença feminina. As noites de Ilana é descrição de busca solitária e imaginada pelo outro, que pode ser um ou vários. O rosto de Estevão, narrado na primeira pessoa, torna-se quase monólogo angustiado marcado também pela solidão. Sem fim repercute uma voz mais nervosa e lembra cena dramatúrgica ao apresentar aqueles que resgatam pelo nome alguma essência mitológica: Daphne, Hermes, Eulália... Duas apresenta com Luísa e Sílvia, “as namoradas de grandes arroubos”, o eterno desafio da (in)completude, tema retomado de forma diversa no conto seguinte, Fábula. Depois vem Blanche, amor viciante, aquele que escraviza e pode não ser por uma pessoa. O conciso O sonho que não fomos tem a beleza das pedras lapidadas. Réquiem fecha a antologia e faz de um velório o balanço de uma vida. 
 
A impermanência das emoções, a transformação contínua dos seres, a inexistência de sentimentos sem seus contraditórios, a recusa à idealização, a dor da incompletude e a busca corajosa da verdade são algumas das alavancas temáticas que sustentam e distinguem a ficção de Vanessa Maranha. Seu estilo é marcado por frases de sintaxe singular, onde o sujeito se desloca muitas vezes para além do verbo, este não raro ocultado por elipses; a pontuação segue o ritmo das emoções e pode dispensar as vírgulas; o gerúndio se impõe para marcar o tempo, preocupação constante e referido no início de muitos contos. A partícula expressiva que  substitui com tom autoral a conjunção explicativa pois contribuindo para a criação de frases que ganham status de aforismo, com acontece em Réquiem: “Que sofrimento também é lugar.” E imagens originais irrompem perfeitas e plenas no contexto da história, como um clarão ao entendimento e oferecimento estético à sensibilidade: “escolhendo e separando roupas em combinações que ele vestiria 
sem questionamento, no arame apertado do hábito (Moderato Cantabile).” 
 
Quando não somos mais é livro onde à análise profunda do comportamento humano corresponde trabalho cuidadoso com a linguagem. De sua leitura saímos muito mais acrescidos para entender diferentes formas de amor e jeitos de amar. Sem julgamentos, embora incomodados diante do transitório, marca maior de tudo o que pulsa e portanto vive, até que chegue ao fim - formal, factual ou simbólico - na transição para o novo, outra ordem , recomeço.
 
 
A FICCIONISTA
 
Vanessa Maranha
 
“Páginas de amores urbanos inventados; o amor agonizante; o amor entre iguais; os amores vadios; os amores tóxicos sombreados pela melancolia, anverso da alegria escandalosa que o grande amor traz em si.” Assim é sintetizado pela autora como epígrafe, e na orelha também, o livro de contos Quando não somos mais, lançado também  em Franca, ano passado. De acordo com entrevista à repórter Tarissa Esteves, do caderno Artes, a ficcionista disse na ocasião que a concepção do livro servira como válvula de escape criativa para personagens que se impunham durante a construção de seu primeiro romance, contagem regressiva (finalista do Prêmio Sesc de Literatura e selo Off Flip), publicado igualmente em 2014 . 
 
Quando não somos mais foi vencedor do Prêmio Ufes de Literatura. Vanessa Maranha concorreu com 223 escritores e, na categoria contos, a avaliação foi feita por especialistas como Anne de Souza Ventura (Universidade do Minho/Portugal); Mara Coradello (escritora); Renata Bonfim (AFESL) e Tarcísio Bahia de Andrade, da Universidade Federal do Espírito Santo.
 
O início de sua carreira literária deu-se com As coisas da vida, reunião de crônicas. Vieram depois Cadernos vermelhos, fragmentos onde já se podiam perceber as características que definiriam seus estilo e temática em 807 dias, contagem regressiva e Quando não somos mais . 
 
Vanessa Maranha é psicóloga e atuou como jornalista neste Comércio. Ganhadora de prêmios nacionais e internacionais, tem sido presença constante na Flip como escritora convidada. Estará na Feira do Livro de Ribeirão Preto em junho, participando com Luiz Cruz de Oliveira, Paulo Gimenes e a editora deste caderno do Salão de ideias que versará sobre o tema A literatura fora dos grandes centros: criação, publicação e visibilidade. (SM)
 
 
Livro
 
Título: Quando não somos mais
Autor: Vanessa Maranha
Editora: Edufes
Páginas: 84
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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