Rotina

Por: Chiachiri Filho

Edu, funcionário público aposentado, foi visitar o seu amigo Pereira que se encontrava hospitalizado. Bateu levemente na porta do quarto, entrou, sentou-se e começou a conversar.   O doente, satisfeito com a visita do amigo, puxou a conversa:
 
- E aí Edu, como tem passado?
 
-Na mesma, Pererinha. Na mesma mesmisse de sempre.
 
-Como assim Edu?”– Perguntou o Pereira.
 
E o Edu:
 
-A minha vida é uma rotina só. Nada muda. Tudo é sempre igual. Vai dia e vem dia e eu sempre faço as mesmas coisas.  Levanto-me de manhã lá pelas 7, vou ao banheiro, escovo os dentes, isto é, os poucos que me restam, vou para mesa do café, tomo um bem preto acompanhado com um pãozinho com manteiga. Abro a porta do quintal, brinco um  pouco com meu cachorro, pego a sua guia e vou dar uma voltinha na praça perto de casa. Compro o jornal, sento-me no banco, leio algumas notícias sobre a corrupção, a violência e as tragédias do dia a dia e volto para casa. Espero o almoço, como o meu bifinho com arroz, feijão e uma saladinha de alface e vou dar uma cochilada.  De tarde, fico perdido entre a minha casa e o portão da rua.  Tomo um banho rápido e, lá pelas 7 da noite, janto o mesmo do almoço. Daí então, sento-me em frente a uma televisão, assisto todas as novelas, antes e depois do noticiário.  O sono vai chegando de mansinho e após umas três cochiladas, vou direto para a cama. No dia seguinte, cumpro o mesmo ritual. Levanto-me...
 
Pererinha, o doente, preso à cama e com o corpo espetado por agulhas e borrachas por onde passava o soro e mais medicamentos, escutou com muita atenção e interesse as histórias do Edu. A atenção e o  interesse foram tantos que, em dado momento, o Pererinha começou a chorar.
 
Preocupado,  Edu chegou bem perto do amigo e perguntou-lhe:
 
-O que está havendo, Pererinha? Você está sentindo alguma coisa?
 
-Estou sim, Edu. Estou com inveja de você. Eu quero voltar a essa  bendita rotina que tanto o atormenta.

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