Reunião de condomínio

Por: Luiz Cruz de Oliveira

- Vamos começar, Senhor Síndico.
 
- Ainda faltam alguns minutinhos. Na convocação, ficou estabelecido que a reunião começaria às vinte horas, em segunda chamada.
 
-Isso é bobagem.Todo mundo sabe que quem não veio até agora não vem mais.
 
- Vossa excelência me desculpe, mas o Senhor Síndico tem razão. Lei é lei.
 
- Ora, lei. O senhor fala que é advogado e até hoje não arranjou uma lei pra fechar esse boteco aí do lado... ele não deixa ninguém dormir.
 
- Calma, calma, gente. É melhor começar a reunião. Por favor, vamos terminar as conversas paralelas. Vamos começar a reunião. Todos os moradores foram avisados, todo mundo está sabendo: a pauta desta reunião é a troca do elevador social por outro bem mais moderno. Eu sugiro...
 
- Pera lá. Antes de começar essa discussão de elevador, eu quero falar uma coisa. Eu quero dizer que concordo com a Dona Laura. Ninguém aguenta mais esse barulhão à noite inteira. Pelo amor de Deus, ninguém merece isso.
 
- A Dona Neném tem razão. Nem adianta a gente ir na missa. A gente vai, reza, reza, e chega em casa e fica remoendo mágoa até de madrugada.  A gente não dorme, só tem vontade de sair matando gente...
 
- Ela tem razão, o barulho cada vez está mais infernal.
 
- Isso é verdade. Que que adianta ter advogado morando no prédio se ele não serve nem pra acabar com essa barulheira?
 
- Excelência, excelência... Eu exijo que me conceda a palavra. Excelência, por favor...
 
- Senhores, calma, calma. Vamos lembrar que a pauta da reunião...
 
- Mas, Excelência, eu tenho direitos... Excelência, faço questão de deixar patente que o condomínio não me concedeu procuração para defendê-lo. Eu não sou advogado do condomínio. Que fique registrado em ata que, aqui no prédio, eu sou apenas mais um condômino, como todos os demais.
 
- Eu acho é que essa excelência aí não quer é que o barulho acabe. Se acabar a barulheira do boteco, todo mundo vai escutar os latidos do cachorro dele.
 
- Ah, ele também tem cachorro?
 
- Não ouviu, não?
 
- Não.
 
- Por que você mora lá embaixo. Se morasse mais pra cima, ia escutar latido à noite todinha.
 
- E por acaso a Excelentíssima queria que meu cachorro miasse? Caso a senhora não saiba: cachorro late, minha senhora, la- te. E não lhe concedo direito à tréplica, uma vez que a matéria é de sabido domínio público.
 
- Senhor Síndico, Senhor Síndico...
 
- Pois não, pois não... Senhores, a palavra está franqueada à Dona Tetéia, a decana dos moradores. A senhora tem a palavra, pode falar.
 
- Só quero pedir pro senhor botar ordem nessa reunião. A gente está perdendo muito tempo, e quero avisar desde já que, às nove horas, eu vou embora. Hoje é o último dia da novela.
 
- Não tem cabimento... A gente precisando resolver problemas da comunidade, e a pessoa está preocupada com novela... Tenha a paciência.
 
- Faz favor de respeitar meus cabelos brancos, mocinha.  Gosto do que quiser, falo o que quiser. E quem não ficar satisfeito que vá cacarejar noutro galinheiro...
 
- Galinha é a...
 
- Calma, calma, senhoras... A gente precisa ficar na pauta... Vamos acabar com as conversas paralelas. 
 
- Eu nunca peço a palavra, mas hoje eu quero falar. Quero dizer que eu já estou cansada de tanta reunião. Todo mundo fala, fala, fala feito advogado e nunca resolve nada.
 
- Excelência.
 
- O doutor espera que eu estou falando. Quero saber é isso: o valor do condomínio subiu outra vez e eu não vi nenhuma melhora em serviço nenhum. Por que só aumenta?
 
- Eu também nunca reclamei de nada, mas a minha vizinha tem razão. O doutor advogado devia trocar o cachorro por um gato. O bichano é mais limpo e sempre faz pouco barulho...
Duas horas depois, por aclamação da maioria, a discussão da pauta fica prorrogada para a próxima reunião. O síndico agradece a presença de todos e assegura que, apesar de um atrito aqui, outro ali, a reunião resultou indubitavelmente produtiva.

 

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