Entre mares

Por: Maria Luiza Salomão

Maravilhosa estrada que liga ilha-ilha, na fragilidade de um piso que não é chão, Oceano Atlântico à esquerda, Golfo do México à direita, com destino ao sul mais sul de um país-continente: Key West, EUA. Cidade próxima a Miami, sobre corais, recifes e concreto, a estrada finaliza no Estreito da Flórida, entre EUA e Cuba: países inimigos até esse ano. 
 
De carro, como que se navega - mar a mar - atlântidas a sustentar a linda estrada. Estrada reconstruída em 1938, depois do violento furacão de 35. Pedacinho de paraíso, que atrai americanos do país-continente, snow-birds, “pássaros da neve”, que lá vão para as Florida Keys, clima quente tropical, ano inteiro. A estrada vale a viagem: uma série de 42 pontes que impressionam pela magnitude, obra de engenharia. A mais famosa é Seven Miles, 11 km de concreto sobre o mar. 
 
A ponta sul de Key West, última ilha do arquipélago Florida Islands, dista 150 km de Cuba. Dos milhares de mortos afogados na tentativa de travessia, das histórias perdidas, as sereias guardam segredos. 
 
Chegamos à beira do píer, entre mares, e o sol se punha como se põe todos os dias em todos os cantos do mundo. As pessoas, qual em uma reunião à beira de uma gigantesca fogueira, se reúnem, sentadas, em pé, a perambular. Uma música meio cubana meio americana cantada por dois afro-cubanos-americanos saúda o fim do dia, o começo da noite. 
 
Línguas se misturam, risos cascateiam, cada qual no seu casulo onírico, todos miram o horizonte sol mar. Podem haver sunsets mais lindos, mas é bela, ali, a sagração ao sol que se põe: homens e mulheres guardam seus olhares, admirosos, ao que corusca no céu e no mar, e aquele momento não é mais o de todo dia.
 
O Sol é o grande olho de Deus que a pálpebra da noite faz desaparecer na água do mar. Hipnotizando a todos, que tentam a captura celular do momento.
 
Quisera despedir do Sol, todos os dias, assim: musicando, abraçada aos que amo e aos que me amam, cantando e silenciando tristezas, saudando os raios da luz abocanhada pela escuridão, como se boa nova trouxesse. 
 
No céu tinto de vermelho, coalhado de pássaros negros, o astro rei se retira, no centro do teatro mar-a-mar. De repente, as palmas das gentes repicam, sem necessidade de maestro, para o seu lento espreguiçar de luzes, tons e semitons mutantes laranja, rosa, lilás, em ritmo cadenciado... 
 
Dispersam, enfim, as gentes, sol afogado em mar, como se planetas solitários e solidários, em órbitas humanas diversas, a refletir luz e escuridão - cada qual no seu canto. Poucos no píer permanecem a meditar o mar azul-negro, em horizonte de pouca luz. 
 
Um dia de nunca mais acabou, em festa nunca dantes festejada, um dia que não retornará. Escrevo para não esquecer. Todo santo dia merece o mesmo: um adeus sentido, aplaudido, vinculado. 
 
Parte o dia, a cada dia, parte o que fui e não voltarei a ser àquela parte. 

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