Mãe eterna

Por: Eny Miranda

No princípio é a célula. E - novo milagre - 
a célula se faz carne e habita o ventre materno.
 
 
 
Tudo (re)começa com a doação de um pequenino fragmento vivo: célula-continente em que mãe e seus ancestrais se dispõem e se predispõem a novos laços e alquimias, a novos perfumes e temperos, a enlaces e encarnações. E a mãe é útero e alimento: sangue; a mãe é ninho, maciez, abrigo. Depois, aberta ao sol, é seio, aconchego... e leite: da vida, reafirmação. Mais tarde, amplia-se: integrando e desafiando o mundo, é rochedo e mar, a conter e a respingar sais, iodos... e açúcares; a erguer e a curvar ondas; a refutar e a ouvir, do filho, as dissonâncias e as eufonias; a fazer, de sua árvore, boa frutificação.
 
Então, quando Deus permite - mistério profundo - que a mãe se vá embora, ela, na sua graça, éter/niza-se, volatiliza, dispersa-se no espaço, vira - como queria Drummond “ar puro, puro pensamento”, que penetra, alimenta e aninha vida e alma de seu filho. “E ele, velho embora, [se faz] pequenino feito grão de milho”.

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