Órfãos de pais vivos

Por: Ione Guedes

 
Espero que esta história possa ajudar-nos a refletir sobre esse tema tão importante chamado família. Desconheço o autor, mas segundo a “lenda”, durante o recreio escolar, várias crianças rodearam um jovem aluno e, com seus dedos apontados para ele, diziam: “Que roupa mais esquisita! Você parece um palhaço!” Acuado e de cabeça baixa, o menino não respondia uma única palavra. Um dos garotos, com seu tom de voz alterado, chamou o professor e lhe disse: 
 
-Repare nas roupas desse menino! Todos os dias ele vem na escola com essa mesma camisa listradinha, calça curta azul marinho e meias vermelhas nos pés. Veste-se como palhaço! Por que não usa uma roupa menos espalhafatosa?
 
Diante do olhar de indagação do professor, o menino decidiu contar a razão  de se trajar daquela maneira:
 
-Sabe, professor, no ano passado minha mãe prometeu que como presente de aniversário, ela me levaria ao circo. Professor, daí em diante, parece que os dias não passavam mais, eu não via a hora de chegar o dia do meu aniversário. Quando finalmente esse dia chegou, minha mãe encheu a bacia com água morna, me deu um banho e me vestiu esta camisa listradinha novinha, depois me trouxe esta linda calça curta e, finalmente, veio vestir-me as meias. Quando vi que as meias eram vermelhas, eu me recusei a vesti-las, ela porém  insistiu dizendo que eu tinha que usá-las . Professor, eu até chorei, pois meus amigos iriam rir de mim se me vissem com essas meias! Diante da minha recusa e de minhas lágrimas, mamãe decidiu contar-me porque eu deveria usar meias vermelhas:
 
-Filho, disse ela, eu comprei  essas meias especialmente para este dia. O circo vai estar lotado e se houver algum conflito, alguma briga lá dentro, o tumulto  vai ser generalizado; vai começar um corre-corre, um empurra-empurra em todos os corredores e isso poderá nos separar. Filho, eu não suportaria viver longe de você, e você é incapaz de viver longe de mim. Se acontecer de nos separarem, eu vou sair pelos corredores do circo, de cabeça baixa, me descabelando como uma louca à procura de meu filho e, quando eu me deparar com suas meias vermelhas, vou dar graças por tê-lo encontrado, vou abraçá-lo, vou enchê-lo de beijos e vou levá-lo pra casa! 
 
Após esse relato, as crianças ficaram mudas e pensativas, até que uma delas decidiu quebrar o silêncio e disse:
 
- Tá  bom, naquele dia você estava num circo, lotado de gente, mas aqui é uma escola, e não um circo! Por que, então, todos os dias você vem vestido como um palhaço?
 
Diante de tanto questionamento, o menino decidiu concluir sua história:
 
- Sabe, professor, tempos depois do meu aniversário, meu pai brigou com minha mãe, e minha mãe brigou com meu pai. Minha mãe foi embora de casa e não voltou mais. Mas minha mãe afirmou que não é capaz de viver longe de mim, ela sabe o quanto eu a amo e que não consigo viver longe dela
 
Com lágrimas nos olhos, complementou:
 
- Minha  mãe me ama muito. Ela disse isso muitas vezes, e deve estar andando pelas ruas à minha procura, de cabeça baixa e se descabelando. Quando ela vir minhas meias vermelhas, ela vai dar graças por haver me encontrado, vai me abraçar, vai me encher de beijos e me levar para casa .

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