Lucinha

Por: Roberto de Paula Barbosa

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Seus olhos eram fundos e tristes, mas notava-se certa sagacidade, própria das crianças da sua idade. O olhar perdido desviava-se de quando em vez pedindo uma moedinha para ajudar a mãe tratar de seus quatro irmãozinhos menores. Perambulava pelas calçadas dos bares à cata de algum resto de coxinhas e pastéis, revirando latas de lixo procurando comida para saciar sua fome e a de seus pais e irmãos. Diante daqueles trapos que lhe cobriam partes do corpo, exalando odor ácido de urina e suor, as pessoas torciam o nariz, desviavam os olhares, e pensavam: “Que horror, como é que os pais deixam essa criança desse jeito na rua?”; “Quem botou no mundo é que cuide”; “A Prefeitura não faz nada para tirar essas crianças da rua?”; “Deviam despachar essas pessoas para as cidades de onde vieram”.
 
Lucinha, era esse o seu nome, esquálida, na tristeza de seus dez anos de idade, aparentando apenas sete, dadas sua magreza e raquitismo, vendo dois homens sentados em um banco da praça, aproximou-se e pediu uma esmola para ajudar a mãe. Os dois se entreolharam e vendo aqueles cabelos desgrenhados, embaraçados, duros de tanta sujeira, mas percebendo o olhar tristonho, suplicante, lembraram que se podia fazer alguma coisa, já que pertenciam a uma instituição que lhes ensinara que o caminho para a busca da perfeição moral era a Fé, Esperança e Caridade. Resolveram, então, perguntar àquela garotinha onde é que ela morava. Viram as palmas sujas de duas pequeninas mãos juntas e os ombros encolhidos junto ao pescoço fino, querendo dizer que não sabia. Perguntaram por sua mãe e ela os levou até uma marquise de um cômodo comercial fechado, do outro lado da praça. Depararam-se com uma senhora sentada no chão, a mão estendida, envolta em uns trapos, e em seu colo uma criança sem roupas, tão magra que os olhos pareciam saltar do rostinho sujo, que tentava, em vão, sugar algum leite daquilo que outrora deveria ter sido um seio materno. Ao seu redor mais três crianças, igualmente magras e sujas: o menor, usando apenas uma camisetinha puída e furada, corria em todas as direções, fazendo as pessoas se desviarem; o outro, um pouquinho maior, sentado junto à mãe, tentava roer um pequeno pedaço de pão; e o mais velho dormia sobre um resto de cobertor encardido, com a cabeça escondida atrás de sua mãe.
 
Aquele quadro de horror, cinzento, sem cores e sem vida, desviava os olhares de alguns, causava asco em outras, e despertava em muitos o sentimento de dó, tristeza e revolta, fazendo com que poucos jogassem alguns centavos perto daquela que suplicava uma esmola pelo amor de Deus.
 
Refeitos do primeiro impacto, obtiveram da senhora seu nome - Maria - e endereço para as providências cabíveis. Foi elaborada uma carta solicitando auxílio e entregue à instituição à qual pertenciam. Providenciou-se uma sindicância, verificando In loco a veracidade do pedido, ela foi colocada em discussão com os associados e todos aprovaram a ajuda àquela família. Fez-se a coleta e foi apurada a importância equivalente a dois salários mínimos que foram utilizados na compra de diversos alimentos não perecíveis. Do encontro com Lucinha até a aquisição dos alimentos, passaram-se sete semanas. Os responsáveis pelo pedido foram designados para a entrega.
 
Um casebre meia água, coberto com algumas folhas de zinco, intercaladas com alguns plásticos e pedaços de telha de cimento amianto, piso de terra batida, um portal baixo e uma cortina esfarrapada à guisa de porta, abrigava Dona Maria, suas cinco crianças e o marido. Dentro percebia-se apenas um cômodo, com duas camas mal arrumadas, alguns caixotes, diversos utensílios sujos, um fogão com algumas panelas pretas e vazias sobre ele. Uma pequena mesa abrigava um caixão branco, rodeado de algumas velas, e pessoas à sua volta conversavam baixo e em tom de profunda tristeza. Dona Maria, cabisbaixa, sem mais lágrimas para chorar, nem forças tinha para conversar. Seu marido, agachado a um canto do cômodo, olhos vermelhos, parecia não se importar com o que acontecia ao seu derredor. Joãozinho, inerte, finalmente limpo, jazia no caixão branco, com algumas poucas flores colhidas pelos vizinhos. Já não lhe fazia falta o seio murcho.
 
Após alguns instantes de estupefação, recebidos que foram pela Lucinha, que não estava mais triste do que já o aparentava, os nossos amigos conseguiram colocar as compras em algum canto do casebre e partiram silenciosos e cabisbaixos por aquela surpresa inesperada.
 
Finalmente, após narrado o acontecido e prestado contas aos demais membros da associação, puderam dizer: missão cumprida.

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