Coco

Por: Roberto de Paula Barbosa

Fortunato Jeremias, mais conhecido por Fortunato Coco, era peão de boiadeiro, dono de um pixaim amassado pelo uso constante do chapéu de couro que ganhou quando veio ainda rapazinho do nordeste, mal fugido da miséria e da seca do agreste paraibano, e tinha o corpo atarracado, baixo e forte. Um caroço do tamanho de uma bola de pingue-pongue aflorava na sua bochecha direita, à frente do lóbulo da orelha, surgindo daí sua alcunha: Fortunato Coco; tinha a voz nasalada, com sotaque típico de sua origem nordestina, e, para quem não convivia com ele, era difícil o entendimento.
 
Uma vez, após passar quase uma lua tocando boiada pelo interior das Minas Gerais, uma rês desgarrou-se da boiama e ficou na arribada, amoitando-se no interior de uma capoeira; o crepúsculo desfiava no horizonte tênues fios de algodão dourados e amarelados e avermelhados, anunciando o fim do dia e o nascer de esplêndida noite de verão. Fortunato ficou para trás com a incumbência de trazer a rês desgarrada, mas como foi ficando escuro, não pôde encontrá-la e também não poderia voltar sem ela. Haveria de encontrar um lugar para acoitar seu corpo cansado e, no dia seguinte, sair à procura do animal desviado. Montado em seu tordilho, ajaezado com uma arreata surrada e suada, Fortunato busca com o olhar um lume cerca de uma légua de distância e de onde ouvira uns latidos. Tocou a montaria para lá e, diante dos ladridos dos cães, foi recepcionado com desconfiança por duas velhinhas que, ao se inteirarem do acontecido, concordaram em dar-lhe pouso e alimento. Feita a ablução, Fortunato sentiu um cheiro característico da cachaça, mas para não abusar da hospitalidade, ficou calado. De repente uma das velhinhas, cismada com aquele caroço no rosto de Fortunato, indagou:
 
- Moço, o que é isso na sua cara?
 
Ao que ele, fanhoso, respondeu:
 
- Hi, Dona! É um dente que está zangado e dói muito. Para dar um jeito nisso é só com pinga. 
 
A velhinha foi pronta:
 
- Nós temos um engenho aqui e nossa pinga é muito apreciada. Vou buscar uma garrafa para o senhor.
 
Assim Fortunato pôde debelar a sua “dor” e passou a noite dormindo como um anjo.
 
Ao amanhecer, as velhinhas encheram a garrafa novamente e Fortunato reiniciou sua busca pela rês desgarrada. Já era tardinha quando ele, tocando a rês encontrada, alcançou seus companheiros que já se preparavam para montar novo acampamento. Sentindo o cheiro da pinga, seus companheiros perguntaram:
 
 - Uai Coco! Onde é que você arranjou pinga?
 
A voz fanhosa e alterada saiu:
 
 - Óxente! Oceis num tem coco, por isso que num bebe pinga!

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