Tanto amar

Por: Vanessa Maranha

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Haviam chegado àquele ponto de tanto amar-asfixia. Naquela impossibilidade de vida que não se desse no estreito âmbito de seu enlace: uma só pulsação, poucas palavras e, se ocorriam, somente as de um desespero, ou ainda aquelas que pelas nesgas de alguma lucidez lamentavam o futuro adivinhado.
 
Sabiam que não sustentariam tal fusão, mas viviam sim todo o torpor à quase loucura de seu amor- aqueles dois ilhados em si mesmos -, no inominável de uma paixão-imã que os atraía e os acorrentava ao ápice de não mais poderem prosseguir nos encadeamentos da vida comum, cotidiana.
 
Três dias seguidos num quarto, transpiração. Peito largo, nele ela se aninhava, protegida de perigos imaginados. Ela o alimentava no cume das noites alucinantes, o vinho, o pão, maçãs, a carne numa liturgia de corpos silenciosos e trêmulos. Sorveram-se reciprocamente, as noites sem fim naquele quarto, na casa branca até se sentirem saciados. Uma saciedade faltante, contudo, que solicitava nos pensamentos de ambos qualquer terceiro elemento, entremeio. Ideias que só podiam ser secretas, porque não desejavam desvelar o que não mais sustentavam e a ambos parecia traição mútua aclarar o desassossego no mundo que então haviam criado.
 
Começou nele pelas lembranças, comparações do corpo dela com outras formas femininas de sua biografia. Nela, o aparte lento e gradual deu-se pelas palavras que ele não sabia dizer, mas que ela já ouvira, como e tanto de outras bocas. Nas músicas que ela pedia, na TV que aos poucos passou a ser ligada. 
 
Ele a vê-la com alguma distância. Ela principiou a se incomodar com a vaziez daquele quarto cama, ele. Pediu cor. E lentamente começaram a se desgostar mutuamente acusando um ao outro a carceragem que jamais admitiam voluntária. Sonhando outros rostos, outros cheiros, mas sem que ainda pudessem dizê-lo. Como se trazer de volta a palavra a tal compartilhamento significasse desalojá-los de tão secretamente construído ínterim.
 
Nada que não fosse ele-ela parecia caber ali, naquela circunstância de tanto amar. Amor que transfigurou-se agora bruscamente em raiva. Raiva que se planificou numa aversão grumosa. Separados, passaram a se odiar com força e fé, ainda enjaulados no pensamento de um-outro. 
 
Mas odiar, estava ali claro, era só um outro jeito de amar.

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