O Crime das Candeias

Por: Chiachiri Filho

Se não me falha a memória, o primeiro e único  indicio da existência  e atuação de um  Esquadrão da Morte em Franca revelou-se através do “crime das Candeias”. Este crime aconteceu em meados do século passado, lá pelas bandas das avenidas, numa região até hoje conhecida como “das Candeias”, nome derivado do tipo dos arbustos predominantes na área.
 
As primeiras notícias davam conta que alguns ladrões de cavalos (dois ou três, salvo engano) haviam se suicidado.  Meu pai, diretor-proprietário do jornal Diário da Tarde, foi pessoalmente fazer a cobertura do acontecido. Foi, viu e não gostou nada do que viu. Os ladrões, mortos, tinham sido alvejados nas nádegas, nas  coxas e, como se fossem  tiros de misericórdia, também nas cabeças. O delegado de polícia  à época, presente na cena dos crimes, afirmava que os ladrões tinham praticado o suicídio. Naqueles tempos, não havia perdão para os ladrões de cavalo e de mulheres  alheias. A sentença obedecia a ritos sumaríssimos, isto é, a morte.
 
Meu pai viu o cenário e, como disse, não gostou. E, por não gostar e nem concordar com a opinião do delegado, denunciou o crime na primeira   página do jornal como abuso inaceitável da autoridade. Na verdade, não houve suicídio coisa nenhuma. Houvera, isto sim, execução; execução sumária sem apreciação ou conhecimento por parte da Justiça.  
 
Entre meu pai e o delegado iniciou-se uma briga que saiu das manchetes do  jornal e foi parar nos autos judiciais. O delegado processou o meu pai e o meu pai fez o mesmo contra o delegado.  Com o passar dos dias, a briga ficou cada vez mais violenta. Até a mulher do delegado entrou na parada  e a zinha tinha um vocabulário de  muito baixo calão.
 
Certa tarde, quando Frei Manuel Gonzáles, vigário da paróquia,  estava em visita à redação do Diário,  meu pai recebeu um telefonema e logo percebeu que era a mulher do delegado. Entregou o fone de ouvido  (o telefone era daqueles antigos) para o sacerdote e ficou esperando a reação. Frei Manuel, com o fone no ouvido, exclamava:
 
“Nossa Sinhora, nossa Sinhora, Mãe  Santíssima, Virgem Maria, Rogai por nós”.
 
Meu pai, rindo, pegou o fone do vigário, mandou a mulher para aquele lugar e desligou o telefone.
 
No final das contas, o processo contra o meu pai não deu em nada e  o máximo que aconteceu com o delegado foi a sua transferência  para Casa Branca.

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