O que não se vê

Por: Lucas Moreira

Quem passa pela Rua Estêvão Leão Bourroul, em Franca, São Paulo, talvez nem perceba, a certa altura, um prediozinho de fachada simples, nele apenas uma placa modesta com os dizeres “Luiz Cruz”. Quem passa e não entra talvez nunca entenda o que acontece ali.
 
Naquele prediozinho, uma modesta moradia foi transformada em sala de aula  - em duas na verdade, uma em cima da outra, mas muito parecidas. Engolidas pelas casas vizinhas, bem maiores, as salinhas são abafadas e pouco iluminadas, um ventilador de teto salva vidas, embora às vezes cheire a queimado. O grafite das paredes, já meio pálido pela ação do tempo, e um piso de azulejo discreto, nem valorizam nem desmerecem a edificação. Uma das salas tem, em uma das paredes, um crucifixo dourado, conferindo um ar “contemporâneo”, possivelmente o único objeto com essa proposta. 
 
Por  ambas as salas, um pó fino de giz cobre os móveis que, em essência, são cadeiras com braços largos, usadas para apoiar os cadernos, um tablado que auxilia a pequena professora na sala maior e faz uma falta danada na sala menor, que tem uma lousa mais alta. Uma longa e estreita escada liga uma sala à outra. 
 
Isso é tudo que se vê por lá, mas a história que aquele lugar fez não se conta pelo que se vê, mas pelo que se ouve. Quem passa por lá e não dá atenção àquele modesto prédio, continua a vida como antes, mas se entra e ouve, jamais será o mesmo.

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