Aprendizado em noite de vigília

Por: Mirto Felipim

Sentado na poltrona desconfortável, atento e em silêncio, sinto os ruídos hospitalares. meu irmão ronca como se vivesse seu último sono. já não tenho mais paciência para navegar na internet e o cansaço hospitalar que me possui não transforma a exaustão em sono. 
 
A noite não evolui. atento ao ruído do oxigênio e ao recipiente de soro, para ver se pinga regularmente, vago o olhar na penumbra. Mudo de posição, fecho os olhos longamente e fico feliz pelo barulho do sono dele. significa que está vivo.
 
A internação de urgência não me surpreendeu. há meses tento arrastá-lo ao médico. quis o providencial destino que um ataque, esperado por todos, menos ele, o fizesse parar aqui, querendo ou não.
 
Lamento, mas é mais uma previsível vitória do cigarro sobre minha família. vitorioso carrasco, ajudou a levar meu pai, escravizou minhas duas irmãs, espalhou-se pela família entre sobrinhos, e, agora, como uma crônica anunciada de Garcia Márquez, derruba o Capitão.
 
Passa das duas da manhã. vagando pelo triste corredor observo os pálidos funcionários a postos em suas trincheiras. tosses esparsas, como versos soltos, sem nexo, ecoam entre abafados grunhidos e discretos lamentos. cada porta abriga um drama, uma família apreensiva, um desengano definitivo ou uma teimosa esperança. é a humana e insana luta para adiar destinos, reparar anos de vício e tentar adiar o rompimento da fatal linha de chegada.
 
Reflito sobre o tempo que cobra todos os bônus usufruídos na miopia insana do ser que se julga imbatível e imune ao ônus que lhe será debitado de maneira compulsória. 
 
Também não consigo imaginar a vida sem a exposição do corpo em busca da satisfação nos vícios arraigados próprios da cultura humana. concluo que é o prazer cotidiano o grande bandido que assalta nossos pulmões, corações, fígados e afins, ceifando diariamente aquilo que chamamos saúde, mas, em troca, sublimando nossa necessidade imediata de compensação das pequenas e grandes frustações.
 
E aqueles que, justamente por não conquistarem nenhuma forma de prazer, a não ser o lamento trágico sobre tudo e sobre todos, adoecem de maneira pior, pois, além do corpo, também carregam o espírito acinzentado da amargura constante?
 
não tenho resposta.
 
Apesar de todo o incômodo da poltrona, consegui cochilar. sou acordado pelo enfermeiro que veio injetar mais alguma coisa no soro do Capitão.
 
Vendo-o agora tão entregue à obrigatória rendição, olhos fechados, rosto cinza, soro, oxigênio e tudo o mais, enxergo claramente seu enorme corpo entregue à fragilidade do momento, sem seus argumentos inconsistentes, mas veementes, sem as suas convicções incoerentes, sem seus arroubos desbotados pelo passado longínquo. 
 
No entanto sinto uma enorme saudade de todas as suas teimosias, incoerências, idiossincrasias perturbadoras, defendidas com a retumbância de seu tom vocal e a despedaçada voragem dos ingênuos. nesse momento de terna  contemplação consigo traduzir inteiramente o significado de amor fraterno na sua mais apurada garimpagem.
 
Observo a rua ainda silenciosa. o dia se infiltra sorrateiro e já ameaça a pequenez da claridade artificial. a luz do amanhecer, barulhos nos corredores, alvoroço de troca de plantão espantam meus devaneios. passei mais uma noite pela vida e, como outras vezes, fui presenteado pelo aprendizado empírico que ela insiste em oferecer e eu, idiotamente, ignoro. 
 

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