Sob o peso de nenhuma flor

Por: Eny Miranda

Há alguns meses, talvez anos, falei, neste mesmo espaço, de uma esplêndida paineira, plantada à margem da rodovia, a quem, à moda do Poeta, perguntei por que permanecia ali, naquela monotonia híbrida de cimento, betume e descampado, e bem em frente a um posto onde os homens estavam muito mais preocupados com veículos, cargas e preços de combustíveis do que com espontâneas manifestações arbóreas de beleza. E ela, sob a leveza de um milhão de flores, se dignou responder-me, com a atenção e o cuidado que o homem nem sempre tem ao responder a certos questionamentos.
 
Hoje, passando pela mesma rodovia, vejo a paineira, agora sem uma única flor, cercada por tratores e retroescavadeiras que, ávidos, devoram verdes e ocres, arando largos espaços para nova semeadura: a de escura manta asfáltica. Vem-me, então, à lembrança, muito nítida, a resposta da árvore àquela minha anterior pergunta: “Eu, como vocês, não tenho escolha. Nasço onde me semeiam - por amor ou por prazer; por necessidade, distração, ou mesmo por vaidade.” Chegou a dizer mais, a aludir a cumprimento de deveres, a respeito e a solidariedade: referiu-se ao oferecimento do verde, da sombra, das flores e das painas; à doação de frescor, maciez e alegria colorida a corpos, olhos e ânimos fatigados... Não mencionou a palavra morte. Nem caberia fazê-lo, tão linda e viçosa estava. O que me levou, naturalmente, a conjecturar sobre os espaços em que teriam vivido seus ancestrais; sobre os arautos que a teriam anunciado; sobre as brisas ou os pássaros que teriam trazido, nas entranhas, suas sementes...
 
Desta vez, porém, nada perguntei àquela ameaçada Ceiba speciosa, e nada ela me relatou. 
 
Mas, por gostar das raízes que fincam o pé no solo e nele se aprofundam em busca do alimento, ainda que, para isso, tenham de atravessar o mundo e enfrentar intempéries; por gostar de saborear os elementos que elas me trazem e que circulam em meus vasos, desde a terra-mãe até as últimas folhas e os últimos frutos das mais altas, aéreas e distantes ramas; por gostar de meu próprio tronco, de senti-lo abraçando o lenho que me mantém de pé e por onde seiva milenar transita e me faz segura, protegida, agasalhada; por gostar dos braços - robustos e rijos de segurar frutos desenvolvidos e maduros ou finos e flexíveis braços de folhas novas e floradas abertas; e das mãos e dedos de adeuses e boas vindas, sinto-me um ser arbóreo. Talvez por isso, nada lhe tenha perguntado, desta vez - não havia necessidade de fazê-lo - e nada ela a mim tenha relatado. 
 
Nossos olhares, contudo, se cruzaram e, eles, sim, mantiveram um silencioso, solidário, profundo, ancestral diálogo. 

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