A sustentável leveza de ser aprendiz

Por: Everton de Paula

Não sou escritor. Aventurei-me a escrever algumas crônicas, contos, críticas; publiquei livros e artigos em jornais e revistas, no curso de quatro décadas; trabalhei em duas longas teses acadêmicas...  Mas nem de longe desenvolvi uma linha única de pensamento, um canal temático e, o que talvez seja pior, um estilo. A cada página pronta, deparava-me com o meu espanto diante da nova visão, da nova perspectiva,  longe do plano primitivo.  Talvez fosse escritor de um dia, mas sem a provável sustentabilidade. É isto, faltou-me a plataforma intelectual sobre a qual se sustentasse um bloco único de ideias e sugestões e, a partir daí, criasse mil e um estudos,  aventuras ou memórias.
 
A percepção inicial se deu há algum tempo, durante os cursos que ministrei e ainda ministro. Preparava uma apostila, lâminas,  após pesquisas às referências bibliográficas, as mais atuais possíveis. Já na segunda aula, em face da característica cognitiva da classe, tangenciava. E como numa espécie de procedimento intuitivo, extraía do mais íntimo de meu intelecto, de minhas emoções, de minhas experiências o que havia de mais verdadeiro e pertinente ao público de então. Cada aula, um novo ensinamento que brotava no calor da hora. E, com surpresa, ao final do curso, relendo as minhas anotações, constatava um fio condutor comum às teorias expostas que não havia sido planejado.  Estudava como quem estuda para um vestibular, antes de cada aula, palestra, comunicação oral. Surpreendi-me com os resultados positivos. Não, definitivamente não sou um professor formado, leitor de uma só obra, detentor de uma só teoria, repetidor de aulas, mas um ensinador revigorado, o que me leva à condição de aprendiz diante da realidade de cada nova turma.
 
Portanto, não sou escritor de estilo primoroso e de temas previsíveis, comprometido com o leitor; nem sou professor “calejado”, experiente, preparado, uma vez que enfrento cada novo contato com alunos como se fosse minha primeira aula.
 
Não sou elegante – meu biótipo me leva à parcimônia de gestos e trajes. Não sou personalidade, minha atuação profissional e social dá-se como numa ação de bastidores, em que articulo a tarefa  para alguém assinar a autoria. Sempre foi assim. Hoje, percebo claramente que era assim mesmo que deveria ter sido, pois preenchi o vazio de tantos que almejavam a luz, a passarela...  Mas se preenchi de luz o caminho de tantos talvez seja porque eu me encontrasse pleno de luminosidade calada, apenas pronto a servir. Acho.
 
É provável que isto explique a escassez de amizades sinceras, eis que com o tempo tornei-me seletivo comigo mesmo, aprendendo a me portar como amigo leal. Desfiz-me definitiva e completamente do manto de interesses para buscar a reciprocidade de uma palavra simples e honesta, que se sustente na própria vibratilidade do amor fraternal.
 
Portanto, não sou escritor, não sou professor, não sou elegante, não sou personalidade. Não esperem isso de mim. Nada tenho a representar.   Que sensação de leveza obter a consciência clara disto!
 
Eis por que disse “não”, educadamente, a tantos convites para palestras, homenagens, presenças em saraus e lides intelectuais, entrevistas, exposição pública. Está bem, fundei a Academia Francana de Letras, compartilhando o pensamento de um Alfredo Palermo, de um Josaphat Guimarães França, de um Jesus Durigan, de uma Jane Mahalem do Amaral,  apenas por exemplos, que julgavam a literatura como forma de elitização da palavra e do pensamento, e não de sua banalidade. Entristeceu-me ser mal compreendido quando dizia “elitização da palavra”. Puxaram para o social, e não para a arte, e daí o mal entendido que não se resolve nunca. Portanto, também não me considero acadêmico.
 
Houve um tempo em que tendi à música. Passei pelo conservatório, estudei piano, especializei-me em regência, formei grupo coral, cantamos e incomodamos uma porção de músicos nesta cidade tão longe da Anhanguera e de grandes centros urbanos, plena de músicas sertanejas, forrós  e vazia de espetáculos eruditos, cênicos e musicais. Onde o jazz, onde a bossa-nova, onde a MPB de bom-gosto, onde o clássico? Não, este espaço de nossa bela cidade ficou reservado ao péssimo gosto musical e à farta gastronomia nos fins de semana. Minha proposta musical diluiu-se, e me tornei instrumentista na sala vazia de minha casa. Não, não sou músico.
 
E assim, aos poucos, quando você se retira de cena, torna-se obviamente um observador, não por intuição, mas por ter vivido, por haver experimentado. Encontro-me descomprometido com todos, à exceção, é claro, dos compromissos com palestras e assessorias a empresas aos quais me dedico profissionalmente com afinco, presteza e, espero, eficácia. Esse inesperado status, em lugar de ser deprimente, causa novo frisson, uma vez que você analisa certos aspectos da sociedade com fundamento, e é ouvido. Acabou o compromisso com o êxito.   Passei também a perceber isto. Não tenho receio algum de apontar o PT como o partido político que mais soube enganar uma nação em troca de se manter no poder. Dizer que tratar bem José Dirceu seja uma “questão humanitária”, na expressão da presidente, é me permitir perguntar se não seria também humanitário tratar da mesma forma o preso José infartado e pobre, o preso João aidético e preto, o preso Pedro cardiopata, pobre e mulato, os presos doentes e pobres de todo o país. Cuidado: mandar José Dirceu para a prisão em regime aberto (expressão contraditória)  é abrir um perigoso precedente. 
 
Não, não sou político, mas o PT não me engana quando manipula números (mais negros e pobres nas universidades, verbi gratia) e olvida a qualidade e o investimento na pesquisa de ponta, na educação básica, no desenvolvimento do pensamento crítico do brasileiro... Repartir a miséria do bolsa família enquanto financia, via programa Mais Médicos, o sistema político-administrativo de Cuba é um escracho!
 
Acabou então? Não, encontro-me calmo, tranquilo, consciente: estou pronto para um bom bate-papo, um caloroso debate,  uma boa reportagem, uma análise mais aprofundada de política, uma boa música, uma palestra, um curso de comunicação, a edição de livros de terceiros, o debate da educação, as relações internacionais, a filantropia... Não sei se é negar a superficialidade, não tenho esta pretensão, mas mergulhar em águas profundas, no silêncio do seu eu, é muito mais instigante e inspirador... De longe!
 
Meu paciencioso amigo leitor, que bom poder lhe falar que não sou escritor, não sou professor, não sou elegante nem personalidade, não sou músico, não sou político; morto, não serei nome de rua, de viaduto nem de escola. Por isso, não espere grandes feitos de minha pessoa. Não me encontro em nenhum alto degrau da hierarquia social.  Em compensação, vivo no momento a mais leve, sincera e descomprometida função: a de reaprender a ser aprendiz. Não se trata de um recomeço, mas de uma nova postura e de um novo olhar para as pessoas, para o mundo, para a vida! 
 
Que leveza, meu Deus, que leveza!

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