Um dia a paixão acaba

Por: Sônia Machiavelli

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Em crônica publicada nos anos 70, Paulo Mendes Campos conta ao leitor que um dia “o amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar...” Repleto de metáforas bem construídas, o texto, um dos mais bonitos e verdadeiros já escritos no século passado sobre o assunto, evolui, de forma serena e sábia, para certa tristeza que caracteriza a consciência de que é fácil se deixar enganar. Ou nada é mais difícil do que não se iludir.
 
É assim, sem ilusões, que o ficcionista Lev Tolstoi trata o tema no romance  Felicidade Conjugal, depois de ter cravado o aforismo muito replicado em várias línguas: “Dizer que a gente vai amar uma pessoa a vida toda é como dizer que uma vela continuará a queimar enquanto vivermos”. De forma profunda e surpreendente, pois ele mal se iniciara na ficção e tinha apenas 30 anos, Tostoi mergulha na alma feminina e detalha de maneira minuciosa o nascimento e a morte da paixão. Ao mostrar como esta modifica substancialmente a vida daqueles que a ela se entregam, lembra Stendhal, que se debruçou sobre a questão inúmeras vezes e descreveu o sentimento em frase antológica: “O amor é como febre, nasce e morre sem que a vontade venha a representar o menor papel.”
 
O romance russo, de 1859, foi um dos primeiros publicados por Tolstoi. Narrada pela protagonista, a adolescente Mária, ou Macha, diminutivo pelo qual é tratada, a história segue uma ordem cronológica mostrando a vida da jovem em companhia da irmã ainda criança e de uma criada da família, na propriedade rural próxima à aldeia de Pokróvskoie, herança dos pais precocemente falecidos. Num clima de tédio e alguma melancolia vive Macha, até se apaixonar por Sérguei Mikháilitch, administrador dos bens das irmãs. Homem mais velho, correto e sério, mas muito reservado e aparentemente solitário, ele se deixa paulatinamente envolver pela jovem, que bem poderia ser a inspiradora daqueles versos de Paul Valéry: “A gente começa a querer/ por simples curiosidade/ por ter visto num olhar/ uma possibilidade”. 
 
Há leitores que têm encontrado neste romance o tom previamente conservador do Tolstoi de Sonata a Kreutzer e Anna Karenina, tragédias de adultério onde a mulher é punida, numa reafirmação machista do relacionamento amoroso. Em Felicidade Conjugal, embora a protagonista quase escorregue, é resgatada a tempo por seu criador, que teria se pautado na ficção por acontecimento autobiográfico.
 
Na primeira parte do curto romance, na verdade tecnicamente um conto longo, mas que se lê facilmente num fim de semana, a impressão que tem o leitor é a de que Macha faz o possível e o impossível para ser agradável ao homem que ama: reza, jejua, toca piano, faz boas ações, chega ao ponto de lhe perguntar como deveria se comportar para que ele ficasse feliz. Mas, na segunda parte, que começa imediatamente após o casamento, o que se percebe no relato é algo insólito: um anti clímax, uma anemia, um esgarçamento, uma percepção súbita de que as melhores emoções tinham ficado no passado. Não chegou aos dois anos  (a medida que os teóricos da paixão atribuem à duração do sentimento amoroso), a felicidade conjugal de Macha e Sérguei. A sensação de euforia; os arroubos que transportavam a moça às nuvens; a desmesurada e infantil alegria que a fazia repetir constantemente “É tão bom viver no mundo!”, o gosto pelo simples, o gorjeio dos pássaros nos campos, as borboletas sobre as flores, a intimidade rósea com que tanto havia sonhado- nada disso tem a mesma importância de antes: “Amar era pouco para mim, depois que eu experimentara a felicidade de me apaixonar por ele”, conclui ela num momento de autoavaliação. E, um pouco mais adiante: “ ...embora ele estivesse comigo, comecei a sentir-me solitária, comecei a sentir que a vida se repetia, e não havia quer em mim, quer nele, nada de novo.”
 
Já viu o leitor perspicaz que entramos aqui na seara do desejo, aquele que promete algo distante, mas quando alcançado se esquiva para mais longe, acenando para que corramos atrás, já que ele ali estará à nossa espera. Em busca de novos olhares sobre si, de admiração e de desejo que não fossem apenas os do marido-enquanto-noivo, Macha consegue induzir Sérguei a se mudar do campo para a cidade, onde a encontramos, depois de um certo périplo, consciente de que emoções são transitórias e nenhuma vida verdadeiramente digna pode ser construída apenas com elas.
 
O final do relato é sugestivo da moralidade de Tolstoi, com considerações da protagonista-narradora sobre a instabilidade dos sentimentos em geral e da certeza de que a paixão tem seu ciclo onde a idealização ocupa lugar proeminente na origem. Por isso ela conclui que “terminou o meu romance com meu marido; o sentimento antigo tornou-se uma recordação querida, algo impossível de trazer de volta, e o novo sentimento de amor aos filhos, e ao pai de meus filhos, deu início a uma nova vida, de uma felicidade completamente diversa, e que ainda não acabei de viver.”
 
Mais do que uma história que tem começo romântico e final realista, Felicidade Conjugal é dos poucos romances do período a colocar luz sobre a paixão, no leque dos sentimentos aquele cuja liquidez é inquestionável.
 
O AUTOR
LEV Tolstói nasceu em 1828, em área rural próxima a Moscou. Filho de importante família, ficou órfão na infância. Frequentou a Universidade de Kazan, onde estudou línguas orientais e direito. Em 1847, por herança, tornou-se senhor de vastas terras em Iasnaia-Poliana. Depois de ter servido no exército, viajou pela Europa visitando vários países. Regressou em 1858 para administrar suas terras e dedicar-se à literatura. 
 
Com vida pessoal cheia de conflitos e personalidade dividida, Tolstói aproximou-se aos poucos de posição pacifista /anarquista, recusando toda forma de governo e poder. Na sua propriedade criou escola libertária, tendo escrito os livros usados nas salas de aula.  
 
Depois das suas primeiras obras, as autobiográficas Infância e Contos de Sebastopol , escreveu Guerra e Paz (1865-1869) e Anna Karenina (1875-1877). Guerra e Paz é visão épica da sociedade russa.  São muito conhecidos seus contos breves A morte de Ivan Ilitch, Sonata a Kreutzer, O diabo. Seu último romance, Ressurreição, data de 1899.
 
Aos 82 anos, cada vez mais atormentado pelas contradições entre sua conduta pessoal e a riqueza material da sua família, e também devido a constantes atritos com a esposa Sofia, Tolstói, acompanhado por seu médico e pela filha caçula, foi embora de casa no meio da noite. Três dias mais tarde, seu estado de saúde se agravou em decorrência de uma pneumonia. Morreu no dia 20 de novembro de 1910, em uma estação ferroviária. O belo filme Última Estação é inspirado neste episódio.

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