Ganhos e perdas

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Na contabilidade da vida registrei ganhos. Entre eles, conheci de perto dois padres poetas.
 
Era década de 1970, e ocorria, sobretudo nos estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, um surto trovadoresco. Havia concursos literários, publicações de livros e declamações de trovas nas mais diversas ocasiões. Foi nessa época que fui presenteado com o livro, Mãos Vazias, de autoria de Padre Celso de Carvalho. A qualidade de sua poesia tanto me impressionou que envidei esforços variados e consegui, através de um amigo, irmão do escritor, trazê-lo a Franca. Padre Celso de Carvalho gentilmente se deslocou desde Diamantina até aqui.
 
Num domingo de manhã, impressionou os integrantes do Grupo Veredas de Literatura pela humildade, pela vasta erudição, pela sensibilidade aguda, pela desenvoltura com que palmilhava, sobretudo, a redondilha maior. Guardo ainda na memória algumas trovas suas:
 
O rio já teve enchente,
 
Ficou seco que faz dó.
 
Assim, a alma da gente:
 
Ontem plena, hoje tão só.
 
Felicidade e horizonte!
 
Igual mentira há nos dois:
 
Há terra além dos montes;
 
Há mais tristezas depois.
 
Meu pensamento sincero,
 
Definindo a multidão:
 
É preciso muito zero
 
Para escrever um milhão.
 
Padre Celso de Carvalho morreu. Restaram-me quatro livros seus. Alguns emprestei  a amigos. Seu retorno aguardo há bons anos.
 
Era década de 1980, quando fui ministrar algumas aulas de redação e de leitura no Seminário da Capelinha. Lá conheci Frei Lauro, natural de Cássia. A origem comum nos aproximou, descobri que o padre era poeta. Apesar de reservado e tímido, leu-me algumas de suas composições, embora praticamente as escondesse de colegas e de discípulos. Foi quase a fórceps que o homem simpático abriu espécie de caderneta e fez leituras rápidas.
 
Foi em vão que cobrei dele e de colegas seus que se publicassem, em livro, aqueles poemas que me encantaram.
 
Frei Lauro morreu.
 
Há mais de vinte anos espero que um possível  herdeiro de suas anotações se decida a publicar os poemas do mineiro Frei Lauro.
 
E assim tem sido.
 
Na contabilidade  da vida, registrei muitos ganhos.
 
Escriturei, também, prejuízos enormes.

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