Céu, nuvens, vento

Por: Farisa Moherdaui

Lembro-me ainda que quando criança encantava-me olhar as nuvens brancas que surgiam no imenso céu de um azul sem fim. Ali, como que num palco, eu via figuras belas, diferentes e até estranhas que enriqueciam a mente de menina curiosa.
 
Difícil era compreender porque eu não podia tê-las e nem tocá-las. E eu então as via como bem quisesse, pois eram simplesmente nuvens que surgiam, sumiam e voltavam mexendo demais com a minha imaginação. Era a Branca de Neve e os sete anões; o gato peludo e bonito da Aparecida; o terço de prata da vovó Sinhana; as águas do rio Grande, a Igreja da pracinha; a árvore coberta de folhas; o velhinho com a sua bengala; pássaros a voar e outras tantas imagens que a cada dia aumentavam os meus devaneios.
 
Agora, tantos anos já passados, por vezes abro a janela do meu quarto, querendo ver de novo as nuvens que surgem e que não são mais como outrora. A Branca de Neve com roupas rasgadas; o gato da Aparecida, sem pelos e rabicó; o terço da vovó Sinhana, faltando cinco contas e um mistério; o rio Grande, um riacho apenas; o velhinho que não consigo ver; a bengala, caída no chão; os pássaros que não voam mais e tudo tão diferente. Que pena!
 
Em outras vezes, porém, vejo um céu cinzento, carrancudo, acompanhado por vento forte que, por si só, fecha com força a janela do meu quarto e no céu nada mais que escuridão, mas posso sim escutar o barulho da chuva que cai lá fora.

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