Degustação literária

Por: Maria Luiza Salomão

Há tempos estávamos a conversar, Clemência, à frente da Biblioteca Pública de Franca (no antigo Colégio Champagnat), e eu. 
 
Sobre? Movimentarmos a Biblioteca, torná-la viva. Biblioteca não é “museu de livros”, intocáveis e intocados: é lugar de berço de ideias, de laços afetivos com a língua nossa, do dia a dia, portuguesa-brasileira.
 
Língua, não como instrumento de comunicação tão-só: língua viva, de todos: aquela que se lapida; que nos faz cidadãos de um só país; que é mãe e nos nutriu desde bebezinhos até nos tornarmos homens e mulheres feitas; que é passaporte para mundos - imaginários ou virtuais - institucionalizados ou concretos. Língua que nos situa no tempo/espaço/alma/sociedade.
 
Surge a ideia de biblioteca gourmet, a ideia de restaurante: restaurar a língua, restaurar desejos de infinito, restaurar fome de raízes, aprender e apreender temperos linguísticos: arcaicos e contemporâneos! O cenário da “biblioteca para crianças” se transforma - mesinhas e cadeiras e copos e pratos: “restaurante literário para crianças de todas as idades”: degustação de leituras. Da palavra embalada escrita guardada em prateleiras para aquela a ser vivificada e devorada, olhos-ouvidos, servida à gosto, à moda da casa. 
 
Uma vez ao mês. Achega-se ao projeto “Degustação Literária” o menino César, e, ao violão, como perfume da “entrada”, encanta os comensais, acompanhando tapas, snacks, appetizers, apéritifs, as poesias-aperitivos. Música e poesia abrem o apetite. 
 
O prato principal: difícil escolha. Bom quando o mesmo autor se permite cozinhar/texturizar os ingredientes e servi-los a vários paladares: prosa, poesia, conto e romance (para crianças e adolescentes), sem artifícios. Os gêneros literários são etiquetas, pré-concebidas ou não. Como quando os comensais se recusam o que está à mesa: “não como carne”; “massa”; “glúten”; “lactose”; “jiló”; não como poesia, esse autor, essa temática, esse estilo...
 
Degustar não é igual a comer. Ter fome não é a mesma coisa que ter desejo. Com fome come-se pão seco; com desejo queremos o inefável, o indefinível, o fundamentalmente preciso. Reconhecemos o que nunca provamos, mas buscamos sem saber; o que nunca imaginamos, a rigor, mas temos um feeling de que - sabe-se lá o nome - nos esperava em um canto da nossa mosaica existência interior. 
 
Libar, saborear, provar, debicar, lambiscar é parte da busca de acervo para os sentidos; patrimônio que acumula traços mnêmicos registrados a partir do olhar, do toque, do ouvir, do paladar, inconscientemente. Da conexão das sensações deslizamos ao mais complexo: sentimentos, e daí às e-moções. Emoções movimentam: étimo da palavra. Pressentimos: emoções levam a novas ações (interiores e exteriores) e configuram quem somos e como nos apresentamos, como fantasiamos ser (ação interior) e...aventuralmente seremos. 
 
Degustar a palavra poética é dar asas ao espírito, livre para viajar ao Leste/ Oeste/Norte/Sul intra e extra-muros da alma passageira do mundo. 
 
Restauremos a alegria de se saber vivo, através da palavra de quem nos pressente e funda bases da espécie humana: os poetas, chefs da alquímica transformação, realizadores da primitiva antropofagia étnica.  

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