Horizontes demais

Por: Hélio França

As belezas e mistérios de Minas Gerais estão sempre atrás de um morro. Acontece que após um morro existe outro, e outro, e outro... 
 
Por isso Minas é misteriosamente bela, ou seja, aquilo que não vemos totalmente nos fascina e atrai. Não, não sou mineiro. Nasci em Franca ( quase ) e fui criado em Ribeirão Preto desde os dois até meus vinte anos, vivendo posteriormente mais doze na Capital do Café , num total de trinta anos. Considero meu “maior defeito”, não ter nascido naquele Estado tão gostoso de viver. Ah! Horizontes demais, sabores, montanhas e cristais! Fosse eu mineiro e tivesse aquela paciência franciscana, a perspicácia modestamente disfarçada, o jeito nato de falar pausando entre as frases, às vezes até verbalizando  o pensamento... É assim o mineiro, não fala muito, mas diz o bastante. E se comunica não só por palavras, mas através da generosa hospitalidade, do olhar fraterno e, principalmente, pela ausência de soberba na maneira de se manifestar, simples assim, por natureza. 
 
De caipira, como pensam alguns, principalmente nós paulistas, o mineiro não tem nada. Existe sim uma forte predominância à escolha da simplicidade da vida no meio rural. O que, convenhamos, não justifica essa comparação com o termo “caipira”. Aliás, os  fatores poluentes das grandes metrópoles ditas modernas vêm mostrando na atualidade que viver em pequenas cidades é mais salutar e a qualidade de vida infinitamente superior. Se não, vejamos : o ar é mais puro, o silêncio pode ser ouvido, as horas do dia sobram, porque não há trânsito, nem filas, nem aglomerações. 
 
Em relação à arquitetura, Minas Gerais guarda em seus casarios (com imóveis particulares e cidades inteiras tombadas ) as memórias da colonização portuguesa em residências com múltiplas janelas e portas enormes de madeira de lei, pisos em pedra bruta, candeeiros e lampiões nas paredes das casas, praças públicas e calçadas. É a história com cheiro de antigamente, com sabor de saudade, onde permanecem em nossa memória olfato/visual/gustativa os registros daqueles biscoitos e pães de queijo cujo naco retirado à primeira mordida deixava expelir uma fumacinha do interior da guloseima ainda quente, odorizando o ambiente e a alma. Tudo, é claro, regado ao inconfundível cafezinho reconfortante, passado em coador de pano. 
 
Coador de pano ? O que é isso ? - diria a maioria dos paulistas que conhecem o filtro de papel, ou, para ganhar mais tempo, a máquina de fazer café rapidinho, o expresso, com gosto de modernidade. Fazer o  quê,  uai!

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