Uma infância

Por: Vanessa Maranha

Contara-me: no mais delicado da percepção, fora um fruto sujo, caído no chão. A pele machucada, mas apetecível ainda se abraçada por algum desejo, era ela. Torta jogada no mundo, torta seguira vida adiante no seu sem-lugar que desaguara, afinal, nalgum lugar precário.
 
Sintetizando objetivamente, germinada fora; apanhada então por quem não pudera ter filhos e dela resolvera fazer filha. Acalentada até que, magicamente, caminho aberto, tal casal que a adotara pudesse ter o próprio filho. Era então ser abandonada e renegada pela segunda vez, tão criança ainda para existir sozinha assim. Uma borralheira desde que o irmão anunciou chegada. Quiseram mesmo, secretamente, devolvê-la, jogá-la de volta ao chão duro de onde viera, mas havia a Lei e os olhos dos outros.
 
Às pedras e terreno árido, de pequena construiuse, sem outro modo, aparte e além. Umas anestesias poderosas fundadas na crença de que tal gente não a merecia, essa gente amalgamada no (e só nele) rebento branco que muito gritão chegava ao mundo. Nos alicerces dessa superioridade forjada, contudo, sentia-se mínima, trazendo, à deriva dessa não-gente, a vocação ao exílio, trancafiada compulsoriamente no seu quarto-mundo desde pequena e dele saindo somente para comer, ir à escola, ajudar nas tarefas da casa e ser espectadora da familiazinha alheia em arrulhos de uma felicidade não-estendida para entender que absolutamente àquilo não tinha direito. 
 
***
 
Não espere longo, meu doutor.
 
Vou contar já de entrada o modo como voltei ao grau zero, existindo assim nele. Grau zero é o antes da coisa, ponto de partida, onde tudo é nada ainda.
 
Tive pais adotivos. Cedo eu soube que à mãe não faria feliz: experimentava modos de ser para agradá-la, mas, de volta, sempre, algum rancor atemporal. Nos dele, esse pai, havia, inominada, mas, o tempo todo premente, alguma acusação.
 
Entre rancor e acusação, sobrevivi, me esgueirando. Muito fora do lugar, fazendo então do deslocamento uma posição, um jeito de estar no mundo, em débito, a me desculpar por delito presumido, em busca de algum brilho com que haver.
 
Mas, era inútil. A cisma me precedia e me envolvia em rótulo: não há pior forma de entrada no mundo que pela via do sem-vontade. Não me queriam por aqui, embora eu tivesse brotado assim mesmo.
 
Insistir tem sido o meu modo. Penetra na festa alheia, espectante, outsider. Você facilmente repete tal experiência de rejeição e desamparo vida afora, ainda que as terapias, mesmo que o conhecimento, porque é intenso e muito maior que qualquer racionalização: timbrada nesse lugar conhecido que é o não-lugar.
 
***
 
A infância envolta por segredo, ela, aquela menina, sabia que algo não lhe havia sido dito e, assim sabendo, sem saber ao certo, aos vinte e cinco confusos anos, perguntou, para muito desértica refazer-se nalgum sentido.
 
Foi em jorro agressivo que a mãe deixou vir a verdade. Escrever imaginariamente foi uma defesa lograda aos sete ou oito anos, porque ali pouco se dizia. Escrever como uma arma com a qual contornaria a vida inteira, obsessivamente, tais questões, metaforizando-as, até, enfim, despejá-las. Fazendo-se circularmente a acusação de uma imensa mentira, mal estruturada muito aparte, o real entrado no fantasiado, devia expiar culpa. Era absolutamente esquiva.
 
Escrever a salvou da infância dolorida, à contenda muito biliosa com o irmão que legitimava aquele casal. O que lhe restava, nesse tempo, era gerir com os olhos essa precariedade, a de um fruto não-deles onde só o que era próprio podia ser validado. Perscrutava-lhes, como uma pequena maníaca, cada gesto e, nunca, em tempo algum, o gesto espontâneo, sequer aprovação. A menina em toda a vergonhosa dimensão, era, ainda, o erro.
 
A dona Carmelita era uma velhinha muito encurvada que morava só na rua sem saída daquela infância. Eram, a velha e acriança, amigas. Uma com oito, outra, provavelmente, oitenta. A velhinha sempre a chamava à torta de limão ou aos suspiros de claras e açúcar. Às vezes, só chá.
 
Duas órfãs numa rua sem saída. Uma desnorteada pelo desconhecido à frente e em redor, a outra, ao cabo das coisas todas, peneirando alguma alegria restante. Ela era sorridente, a outra, uma criança grave.Havia uma assepsia branca na casa da dama dos cabelos grisalhos sempre em coque, um permanente e longínquo cheiro de pinho. Havia um eco, ali.
 

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