O velho e seu rio

Por: Luiz Cruz de Oliveira

O homem interrompe a caminhada. 
 
Ela começara lá no Terminal de Ônibus, continuara por todo um quarteirão da Rua Marechal Deodoro. Apesar do caminho reto, seu andar fora sinuoso, seu corpo buscando as sombras, evitando trombadas. Além disso, havia a fraqueza da mão esquerda suportando mal o peso do corpo sobre a bengala. Imóvel na tipóia, o braço direito mais atrapalhava que ajudava. 
 
O homem demora na pausa.
 
Sente as pernas bambas, e ainda falta a travessia das praças. Depois, ainda restarão dois quarteirões a percorrer.
 
Com esforço, dá um passo à esquerda, encosta-se em coluna da Casa Barbosa. Levanta a cabeça, olha para a frente, avalia a grande distância a ser vencida. Olha de soslaio, vê ônibus saindo do terminal.
 
Uma dúvida intolerável passeia pela mente e pelo coração do homem velho. E ele sofre.
 
O homem não sabe disso, mas ele está parado às margens do Rubicão. 
 
Todo o corpo, todas as feridas lhe pedem que retorne ao Terminal de ônibus, que embarque. Lá na vila, pertinho do ponto há uma casa sua, há uma cama sua, prontas a acolherem o cansaço de uma vida inteira.
 
A vontade , porém, sopra orgulho na mente e no ouvido. Ela lhe confidencia e reitera a  necessidade de fazer os curativos, de reconquistar a independência, a força dos membros.
 
O velho ouve a fraqueza e a vontade. E a sua dúvida não é menor que a do soldado que virou imperador.
 
Todo homem se depara com seu Rubicão um dia, faz sua opção.
 
Por um momento o homem velho fecha os olhos e respira fundo.
 
A sorte está lançada.
 
Então, abre os olhos, caminha e enfrenta a correnteza.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, autor de 23 livros
 

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