Pinga

Por: Roberto de Paula Barbosa

O Senhor Eduardo era dono da venda que ficava na beira da estrada de terra para a Borda da Mata e tinha bastante movimento, pois naquela época trabalhava muita gente na roça e a cidade só era visitada como último recurso, pois era um dia inteiro a cavalo. No sítio do Sr. Agenor, que distava apenas meia légua da venda, morava um casal de pretos com idade avançada. Diziam que seus pais tinham sido escravos lá pelas bandas de Mariana, nas Minas Gerais. Era o Tião e a Benedita. O diálogo entre eles era curto e, por morarem juntos há muito tempo, apenas o olhar e os gestos eram suficientes para se entenderem. O velho, apesar da idade, tinha as mãos calejadas no trato com a enxada, ferramenta que manejava com muita destreza, e trabalhava de sol a sol. A Dita, como era mais conhecida, já não enfrentava o batidão da roça, mas encarava todo o serviço doméstico e de quintal. Um de seus passatempos preferidos era tomar uma cachacinha, que ela não dispensava hora alguma. De manhã, com o café para esquentar; no almoço para abrir o apetite; depois como digestivo; ao meio dia para reforçar a merenda; de tarde para abrir o apetite da janta; junto com a janta para ajudar na digestão e à noite para descansar e dormir mais sossegada, pois que ninguém é de ferro. 
 
As compras eram feitas na venda do Sr. Eduardo e a marcação era num caderno, onde ele relacionava tudo: em cada página do caderno havia o nome do comprador, a data, artigos comprados e o valor, tudo muito bem organizado. Ao receber os salários, todos iam à venda para quitar seus débitos e comemorar, tomando umas e outras.
 
Uma vez, quando o Tião foi acertar as contas, o Sr. Eduardo pegou o caderno e leu todos os gastos, já que aquele não sabia ler. Após os acertos, o Tião disse:
 
- Seo Eduardo, me faz um favor, num vende mais pinga pra essa Nega não. Toda vez que vou acertá com o senhor, só escuto: PINGA, PINGA, PINGA, PINGA.
 
 
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor
 
 

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