Ouvindo os Carpenters

Por: Maria Luiza Salomão

Ouço o CD no carro e o eu-antigo que sou hoje começa a lembrar o eu-jovem de ontem. Mistura interessante o que a música produz, em intensidade emocional: seguindo a voz aveludada da cantora, eu me transporto para um tempo outro. Começo a me perguntar se eu era capaz de sentir o que sinto agora, e se sentia isso quando jovenzinha dançando a mesma canção, “de rosto colado”. Época passada, quando celular era coisa de filme de ficção; quando não tinha os pesos corporais e anímicos que ora carrego. 
 
A resposta bem honesta veio rapidamente não! Não seria capaz, então, de degustar como degusto hoje, não só a música, mas as camadas de experiências acumuladas, sinalizadas pela música, instantânea e simultaneamente: a ternura por dores não mais sofridas, a capacidade de me ver enraizada no meu presente sem saudades do passado, a serenidade ao encarar aspirações futuras. 
 
Ao ouvir os Carpenters, Karen e Richard, hoje, lamento a morte precoce da cantora; quero saber de Richard, seu irmão, que a acompanhava em dueto, ao piano. Estará vivo? Karen foi o primeiro caso, de repercussão internacional, para uma doença que atualmente conhecemos melhor. Karen sofria de uma doença obscura: anorexia. 
 
Chocou a opinião pública saber que aquela bonita sereia a cantar maviosa serena belamente melodias, sucessos quase imediatos, morreu de uma doença fatal, de origem psíquica, que a arrancou de nós, violentamente, pela disfunção alimentar não devidamente tratada. Não se falava, como hoje, da anorexia nervosa, doença melhor diagnosticada, embora de difícil tratamento.
 
Ouvia-se rádio, não i-phone. Tínhamos vitrola, nem sonhávamos com vídeoclip. Apreciávamos a cálida música dos irmãos Carpenters, a despontar como fenômeno único, anos 70, em cenário musical ocupado por rocks pesados.
 
Que saudade da palavra, e do que ela evoca cálido. Olhares, apertos de mão, abraços cálidos. Na calidez de um relacionamento, são as palavras ( ou a música) que criam atmosferas. 
 
Os Carpenters são cálidos: aveludados e harmônicos, mas não “certinhos”. Ao ouvi-los nascem-me ternuras insuspeitas. Para mim são cult, clássicos. Distantes do frenesi de emoções que se acendem e apagam como um toque no interruptor de luz. 
 
Ouvindo-os, me surpreendi com a minha juventude. Eu me conscientizo do meu prazer ao dirigir o meu carro (companheiro há vários anos); a olhar para o céu, para as nuvens e ver o mundo se tornar azul e branco e redondo; vejo o que fui, com condescendência e perdão. Comparo a pessoa de ontem e a de hoje, e me sinto clássica, cult, mais consciente dos monstrinhos e demoninhos cada vez menos assustadores, dentro e fora de mim, que me ajudaram e ajudam, me atrapalharam e atrapalham. Sinto que todo o vivido é rico e certo e bom e nada precisa ser alterado, ao fim e ao cabo. 
 
Tudo isso com os Carpenters? 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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