Para que ler?

Por: Everton de Paula

Tenho encontrado alunos do ensino médio que se sentem incomodados com  o número de obras literárias, de leitura obrigatória, indicadas pelo professor de literatura ou português. Alguns até preferem assistir aos filmes, retirados da locadora, quando os há. Dizem que o filme apresenta a mesma história do livro em menos de duas horas (a leitura pode levar dias!), com a vantagem de “não termos de raciocinar e imaginar situações sugeridas pelo escritor.”
 
Ora, aí é que está a riqueza literária: imaginar o sugerido! Desenvolver a consciência crítica e tornar mais refinados os nossos sentimentos.
 
Uma pessoa é o que lê. Se nada lê, nada tem para falar ao coração ou à razão de ninguém; fala apenas para a sobrevivência social e física: “que horas são?”, “estou com fome”, “para onde vou?”, “que devo fazer com isto?”, “como fazer?”, “o que está acontecendo?”, “qual é o preço?”, “sim, não, talvez!”... No mais, é um repetir de gestos e palavras dos membros da família, da escola, do clube, da turma.
 
Se nada lê, a pessoa fica pobre de imaginação, e aí não consegue convencer ninguém de suas verdades: apenas ouve e segue seu caminho, submisso, servindo, sobrevivendo.
 
Ao contrário, quem lê abre as portas da alma para o mundo. Ler jornais e revistas aciona a razão, informando-se do que se passa no mundo das ciências, da política, da tecnologia, da economia, do meio ambiente, das artes, dos esportes, do entretenimento. Ler literatura aciona o sentimento, desenvolve o sentido da imaginação, conhece mundos e pessoas diferentes do seu convívio; cria paradigmas; vivencia situações de erros e castigos, virtudes e vícios, cobiça, inveja, ódio, amor, justiça e injustiça.
 
Acresça-se a isto o contato com a palavra escrita (mesmo digitalizada!), com a sua beleza estética, a beleza da frase, do estilo, o que produz o mesmo sentimento de quando ouvimos uma música de que gostamos, de quando vemos um quadro que apreciamos, de quando nos encantamos diante das belezas produzidas pelas mãos e inspiração do artista.
 
Ítalo Calvino, ensaísta literário italiano, defende algumas posições quanto à leitura. Vejamos algumas delas:
 
 
• Os livros, principalmente os clássicos, constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.
 
• Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória... É, em suma, o ficcional que instalamos em nossa mente.
 
• Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.
 
 
Não queremos, ao relembrar estas citações, afirmar que a leitura de clássicos torna-se imprescindível desde o começo. Sabemos que há um viés na história cultural do povo brasileiro que o leva a entretenimentos bem distantes dos clássicos literários, musicais, plásticos. E aqui eu lamento profundamente a situação cultural de Franca: não bastasse fechar escolas,  abrir um presídio, vivemos agora a triste realidade de não haver na cidade boas livrarias à disposição do público, salvo os sebos.  E tome música sertaneja!
 
Não queremos fazer apologia dos clássicos unicamente, entretanto o simples contato com a literatura infantil, infanto-juvenil, para adolescentes e adulta pode levar a criança, o jovem e adultos ao hábito da leitura, ao gosto da leitura e à busca dos clássicos.
 
Euclides da Cunha é um desafio difícil de vencer pela linguagem? Tomemos Machado de Assis. Este é complexo pela profundidade na análise psicológica de seus personagens? Lembremo-nos de Jorge Amado, e Lobato (até que o proíbam de vez!), e Bandeira, e Veríssimo, e Drummond, e Rachel de Queiróz... O universo literário é infinito, para todos os gostos, idade, local e época.
 
Ler é melhor do que não ler! Para que perder esta oportunidade barata de enriquecimento cultural?
 
Cabe aos pais (ainda posso falar da responsabilidade de pais?), mas principalmente aos professores, a nobre tarefa de despertar nos filhos e alunos o hábito e gosto pela boa leitura.
 
Assunto puxa outro: vejo pipocarem na cidade cursos de redação. Já imagino a advertência dos professores: “Para elaborar uma boa redação, é necessária a leitura de bons livros.” Mas não se indicam que bons livros são esses; não se exige a leitura e a resenha de tais obras. Quanto muito, redação sobre temas atuais e, por culpa de avaliações como o Enem, dá-se ênfase à dissertação, como se esta forma redacional fosse a única saída para o exercício mental da crítica, dos sentimentos, dos sentidos, das percepções... Que tal uma redação por dia e a leitura de um livro a cada quinze dias, acompanhada de resenha?
 
Não, seria demais para um pobre e atarefado adolescente brasileiro.
 
Escrever, criticar e intervir em questões da contemporaneidade tornou-se modismo. Não que seja condenável, mas que ninguém duvide ser ainda pouco para o desenvolvimento de uma redação além de satisfatória.
 
Leitura, muita leitura até tornar-se hábito, quase um vício: livros, jornais, revistas, pesquisas digitais, ler, ler à exaustão.
 
Lamente-se que a época de hoje não seja propícia a esses ensinamentos, haja vista o celular com multiaplicativos nas mãos em formação de tantos, tantos adolescentes... E na aula de redação!
 
Acho que perdemos a batalha para o visual e o tato
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras