Sonata per un mulaticco lunattico

Por: Sônia Machiavelli

288087
Em abril de 1803 chegou a Viena, depois de aplaudidas apresentações pela Europa, prodigioso violinista chamado George Bridgetower (1778-1860), tendo sido logo apresentado a Beethoven (1770-1827). Afinidades artísticas os uniram e Beethoven, em poucas semanas, compôs a sonata nº 9 para violino e piano. A estreia da peça tornou-se lendária, porque “a certa altura do primeiro movimento, após passagem dificílima para o piano, Bridgetower teria recriado o mesmo trecho ao violino, obtendo a aprovação entusiástica de Beethoven, que se ergueu do teclado, correu até ele para saudá-lo, e voltou a tempo de continuar tocando. A performance foi tão arrrebatadora que, em seguida, Beethoven anunciou que dedicaria a obra ao virtuose e escreveu na partitura: Sonata per un mulaticco lunattico. O homenageado era filho de pai negro e mãe polonesa.” Quem assim relata é o tradutor Boris Schnaiderman.
 
Não houve outro espetáculo com o duo. Na véspera do segundo, irrompeu uma discussão entre Beethoven e Bridgetower por causa de uma mulher, amiga do primeiro e ofendida num comentário pelo segundo. Beethoven, enraivecido, desistiu da oferta e catalogou a peça como Sonata a Kreutzer, dedicando-a a amigo de infância e também grande músico.
 
Em 1889, mortos Beethoven e Bridgetower, Liv Tolstoi (1828-1910), escritor russo já famoso em seu país e fora dele, que tinha com a música relação apaixonada e às vezes mística, publicou uma novela intitulada A Sonata a Kreutzer, obra que no seu lançamento despertou polêmica.  Curioso é que o assunto já não era original; o próprio Toltoi havia tematizado em outras obras sobre as dificuldades do relacionamento conjugal, com seus amores e ódios. O que tornava A Sonata a Kreutzer impactante para o leitor do final do século XIX era o fato de o protagonista, chamado Pózdnichev (que alguns críticos definem como porta-voz do autor), desvelar com intensidade alucinante e de forma muito crua a repressão social sobre a mulher; o desequilíbrio de forças na relação entre cônjuges; a infidelidade como elemento questionável no casamento; e a tendência a tratar questões sexuais de forma hipócrita. Na época soou revolucionário. Hoje seria banal. 
 
Embora o Iluminismo já tivesse projetado suas luzes, a religião não exercesse mais a força coercitiva do séc. XVI, o Estado se secularizasse em grande parte do mundo, os métodos de controle da natalidade fossem conhecidos e divulgados pelos médicos, a Rússia talvez se mantivesse um passo atrás e sua sociedade continuasse a ver a mulher como a enxergava o narrador de A Sonata a Kreutzer: ser inferior, sensual, traiçoeiro, manipulador: “Jogadas ao mais baixo nível social, o de simples objeto sexual, as mulheres usam o que elas têm, ou seja, o corpo, a sexualidade e a sensualidade, para escravizar os homens (...)” Eis o pensamento do personagem-narrador, casado, pai de cinco filhos. Torturado pela culpa e pelo sentimento de ciúme que o levou à tragédia, ele contará a um desconhecido, companheiro de viagem num trem, a sua saga, em ordem cronológica e sob descontrolada emoção. A partir do capítulo XIV, a narrativa ganha velocidade atordoante e acaba por definir o estilo e metaforizar a fuga. Essa exacerbação da em
otividade do protagonista trai seu sentimento libidinoso diante da música, capaz de provocar “a mais perigosa proximidade entre um homem e uma mulher”, conforme se lê no capítulo XXI da novela. Mais de uma vez, Tolstoi apontou para esta característica que considerava inerente à música do compositor alemão.
 
Nessa altura pode ocorrer ao leitor perguntar-se: seriam os sentimentos superlativamente exaltados do protagonista que se associaram no momento de criação do autor à sonata de Beethoven? Ou foi a apresentação da sonata na casa do escritor, na primavera de 1888, que desencadeou resgate de confissão angustiada que lhe fizera um homem traído pela mulher? Impossível afirmar onde brotam as fontes nos espaços de criação, mas é inequívoco que nesta novela de Tolstoi os vínculos entre música e literatura atingem a excelência que coloca a obra literária diante do sublime. O texto encosta na música e com ela se funde. 
 
No filme A Amada Imortal (1994), onde a vida amorosa de Beethoven é tratada com delicadeza, há uma bonita cena em que o diretor homenageia Tolstoi. Num dos diálogos entre o compositor ( interpretado por Gary Oldman) e o amigo Schindler (Jeroen Krabbé), quando o primeiro diz ao segundo que a ideia musical da sonata repousava num amante que tentava alcançar sua amada apesar da chuva, da lama, da trovoada e da carruagem, pode-se ver a novela de Tostói aberta no capítulo 23. É neste que o protagonista faz o relato da noite em que assistiu à mulher pianista e seu amante violinista tocarem a Sonata a Kreutzer, o que lhe provoca o seguinte comentário: 
 
“Sobre mim pelo menos, esta peça atuou terrivelmente; abriram-se para mim como que sentimentos novos, novas possibilidades, que eu até então não conhecera. Algo no íntimo parecia dizer-me: tudo tem de ser absolutamente diverso da maneira pela qual eu antes pensava e vivia (...) As mesmas pessoas, inclusive minha mulher e ele, já apareciam sob uma luz competamente diversa”. Fora da ficção, num livro sobre fundamentos da arte, Tostoi escreveu: “A música é a taquigrafia dos sentimentos”
 
Quanto a Kreutzer, nunca conseguiu executar a sonata. Bridgetower morreu anônimo mas foi resgatado recentemente pela poeta norte-americana Rita Dove, cujo livro Mulaticco Lunattico recebeu o Prêmio Pulitzer em 2009.
 
 
TOLSTOI
 
Lev Nikolaietvich Tolstoi nasceu em 1828 na Rússia, em Iasnáia-Poliana, propriedade tural de seus pais. A família pertencia à aristocracia. Com a morte precoce dos pais, Lev e os irmãos são criados pela governanta Tatiana Iergolskaia. 
 
Em 1851 alista-se no exército russo e começa a carreira de escritor. Publica Infância, Adolescência, Juventude- em 1852, 1854 e 1857, respectivamente. De volta a sua propriedade, procura libertar seus servos, sem êxito. Em 1859 publica Felicidade conjugal, já resenhada nesta página. 
 
Em 1862 casa-se com Sófia Andreievna Bers, então com 17 anos. Com ela viveria até o fim da vida, e teria doze filhos. Em 1863 escreve Os Cossacos. Entre 1867 e 1869, Guerra e paz. Entre 1875 e 1878, Ana Karênina.  Renega a própria obra com Confissões (1882).
 
Aos 82 anos, depois de desavenças familiares, foge de casa e se dirige a um mosteiro, onde pretende terminar seus dias. Morre a caminho, vítima de pneumonia, na estação ferroviária de Astapovo, em 1910.
 
 
LIVRO
 
Título:  A Sonata a Kreutzer
Publicado em: 1889
Autor: Liev Tolstói
Gênero: Novela
Tradução: Boris Schnaiderman
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras