O Centenário do ‘Comércio da Franca’ (1)

Por: Chiachiri Filho

Iniciamos hoje uma série de 4 artigos em que pretendemos situar historicamente o nascimento e o desenvolvimento do jornal Comércio da Franca que está completando o seu primeiro centenário.
 
 
A economia cafeeira promoveu uma verdadeira revolução no Brasil e particularmente, em São Paulo. A abolição da escravatura, a afluência dos imigrantes, a melhoria e a ampliação dos meios de comunicação e transportes, a absorção da mão de obra das fazendas na monocultura do café, o aumento do meio circulante contribuíram, sem dúvida, para o aparecimento de novos núcleos urbanos, bem como para o crescimento acentuado dos já existentes. Assim, muitos “arraiais sertanejos”, despertando-se de sua letargia agropastoril, transformaram-se em importantes centros urbanos com uma população diferenciada e com suas fábricas, lojas e serviços próprios bem definidos.
 
A cidade da Franca não fugirá à regra geral. Muito embora o arraial (núcleo urbano) tenha nascido em 1805 (com a benção do terreno para o cemitério e a construção do templo), o seu desenvolvimento foi muito lento até a chegada da lavoura cafeeira. À partir de então, ampliam-se e intensificam-se o espaço e as atividades urbanas. A cidade cresce acentuadamente em termos de população residente e multiplica as suas funções e estruturas criando melhores condições de vida para os seus moradores e procurando atender as necessidades de consumo e serviços exigidos pelo mundo rural.
 
A participação dos imigrantes (dentre os quais destacam-se os italianos) na construção da cidade e na formação de sua burguesia é um fator de fundamental importância. Sua escolaridade, sua cultura, sua iniciativa e principalmente, sua visão de mundo (muito diferente da ótica dos fazendeiros de gado ou de café, dos senhores das terras, dos agregados e dos escravos do eito) plasmaram um núcleo que, se de início atenderia e complementaria as necessidades de uma economia baseada na agropecuária, trazia, por outro lado, os germes da autonomia e da independência em relação ao mundo rural.
 
Nos finais do século XIX e começos do século XX, o velho arraial de Nossa Senhora da Conceição da Franca renascia com o estabelecimento de inúmeras lojas de armarinhos, tecidos, ferragens, bem como com a montagem de bares, restaurantes, bilhares, lotéricas, hotéis, etc. Instalam-se fábricas e oficinas e são produzidos os mais variados bens de consumo: cerveja, gasosa, fósforos, chapéus, carrocerias, móveis, selas e arreios, calçados. Enfim, a cidade ganha contornos definidos, fisionomia e identidade e é dentro deste contexto que surgem os jornais.
 
O surgimento do jornal Comércio da Franca não foi um fato isolado. Ele nasce numa cidade que deixava de ser um simples “arraial sertanejo” para se transformar num centro urbano de importância. Procuraremos neste artigo dar uma visão geral da década que serviu de cenário e palco para o nascimento deste importante órgão de imprensa que, sem dúvida, merece uma posição de destaque no jornalismo nacional.
 
Em 1915, o mundo estava em guerra. Por 4 anos a humanidade sofreria com as violências dos combates que resultaram em mais de 8 milhões de mortos e levaram dor, desespero, fome e penúria para muitas famílias ( particularmente as europeias).
 
A Primeira Grande Guerra promoveu profundas alterações no ambiente sócio-político-econômico. Na Rússia dos czares que se considerava a terceira Roma, herdeira de Bizâncio e Constantinopla - o Imperador Nicolau II foi deposto e morto e com ele a sua família. Implantou-se a ditadura do proletariado que, segundo a profecia, seria uma fase breve e indispensável ao surgimento de uma sociedade justa e humana, sem classes e governo. 
 
O Brasil estava sob a presidência de Venceslau Brás Pereira Gomes que havia assumido o cargo em 1914 e somente o deixaria em 1918. 
 
Outro acontecimento de destaque foi a entrada em vigor do Código Civil Brasileiro que se verificou em 1 de janeiro de 1916.
 
Na Franca - cujo município era integrado pelos distritos de Restinga, Cristais, Ribeirão Corrente, Jeriquara e São José da Bela Vista - residiam, em 1915, 32.000 habitantes que viviam, principalmente, da lavoura cafeeira. Desta população, cerca de 20% moravam na cidade que crescia celeremente graças a afluência e às diligências dos imigrantes (italianos, espanhóis, portugueses, árabes, judeus, etc.) com suas fábricas, oficinas, lojas e serviços.
 
 Na Segunda década do século XX, Franca já contava, de acordo com os limites e as possibilidades da época, com abastecimento d’água, pavimentação, luz elétrica, telefone, limpeza pública e outros melhoramentos urbanos. Evidentemente, tais serviços concentravam-se no retângulo central da cidade. Não obstante, outro centro urbano, muito mais progressista, formou-se e se desenvolveu rapidamente (graças ao seu pujante comércio e a sua eficiente prestação de serviços) no Alto da Estação, vivendo, certamente, em função da gare da Cia. Mojiana de Estradas de Ferro. A cidade crescia pelo seu comércio, suas oficinas e por suas manufaturas.
 
Em 1914, por exemplo, Roque Constantino instalava a sua alfaiataria à rua do Comércio (ns. 28 e 29) e o mesmo fez João Batista D’Elia à rua Jorge Tibiriçá n. 60 (Voluntários da Franca). Na rua Moreira César (Ouvidor Freire) n.43, Acrísio Marcondes pôs em funcionamento a sua fábrica de cigarros de palha produzindo as marcas Fidalgo e Preferido. Melem, Atiê e Nassib Salim estabelecem-se com seu restaurante, confeitaria e bilhar na Praça Barão da Franca. Antes de fundar O Comércio da Franca, isto é, em 1914, José de Melo e seu mano Joaquim dão início à sua Livraria, papelaria e tipografia na Praça Nossa Senhora da Conceição. Em 1915, com um capital de 22 contos de réis, Carlos Pacheco de Macedo abre mais uma firma dedicada aos “artigos de couro, sellaria e cortume” situada à rua Jorge Tibiriçá, n. 63 e Major Claudiano, n. 64. 
 
É dentro desse mundo e dessa cidade que, em 30 de junho de 1915, surge a primeira edição do jornal Comércio da Franca.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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