Dia dos namorados

Por: Roberto de Paula Barbosa

Estou com setenta anos, mas quando chega o Dia dos Namorados, volto ao passado na Rua Monsenhor Rosa, quando, de uma janela, dois olhos verdes fitam-me com intensidade até então desconhecida, como raios fulgurantes que penetram minha pupila e vão diretamente ao meu coração, que se acelera, arrepiando-me a pele. A simples possibilidade de não poder sentir aqueles raios novamente deixavam-me apavorado, até o momento mágico de passar outra vez pela mesma rua e sentir os inquisidores olhos a me espreitar. Há mais de cinquenta anos era-me impossível aproximar de tal anjo, pois não cultivava a loquacidade e a ousadia inerente aos jovens de hoje. Foi-me difícil e angustiante adquirir coragem e determinação para dirigir-lhe as primeiras palavras e, quais palavras? Timorato ao extremo e ainda temendo enfrentar a fúria de irmãos e pais, só a paixão corroendo-me as entranhas é que me estimulou ao primeiro contato, que surgiu na Praça N.S. Conceição, onde os rapazes circulavam em um sentido e as moças ao contrário. 
 
Hoje, com filhos formados e netos em plena florescência, ainda me recordo dos momentos felizes e das grandes dificuldades porque passamos, todas superadas, mas a felicidade permanece com a mesma intensidade no olhar, no carinho, no afago, nas palavras e no respeito a que nos devotamos. Os olhos continuam verdes e a cada vez que os vejo – todos os dias – ainda sinto os mesmos raios radiantes insinuando-se em meu ser.
 
Minha amada, ontem, Dia dos Namorados, você recebeu um ramalhete de botões de rosas. Cada haste com espinhos representa as adversidades que enfrentamos durante nossa caminhada, mas os espinhos foram removidos habilmente; as flores vicejam com a abertura dos botões e se tornam rosas de cores vivas; as pétalas vão fenecer, pois são transitórias, mas o meu amor por você durará enquanto não encontrarmos o mesmo caminho delas.
 
Minha vida se resume nos anos que eu a conheci; os outros não contam, pois um vazio vivia dentro de mim: criança, adolescente, jovem sem rumo e esperança.
 
A todos os casais que tiveram e tem um grande amor, dedico este texto para que sempre desfrutem dentro de si a chama da paixão que o tempo não apaga; os ventos fortes podem quase extingui-la, mas se o combustível que a sustenta for forte e suficiente ela não cessará e a manterá até que os nossos olhos se fechem definitivamente e, talvez, além. 
 
 
Roberto de Paula Barbosa, aposentado e leitor
 

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