Na feirinha...

Por: Maria Luiza Salomão

Vou sempre ao Mercado, mercadão municipal, para saber dos legumes, das verduras, do que se come no dia-a-dia, enfim, na cidade que quero conhecer. E também às feirinhas, saber do artesanato típico local, dos souvenires. Quero sentir o colorido: das vozes, das gentes, da cultura encarnada em gestos e objetos. Ambiente oposto às lojas de departamentos ou de supermercados, onde reina a pressa, a obsessiva separação dos produtos, a organização previsível para consumo utilitário e imediato, a homogeneização global e universal das mercadorias. 
 
Aprecio o imprevisto que se oferece ao tato, ao olfato, ao ouvido, à livre conversa. O mercador que se achega, grita, ou seduz o freguês. Bancas que dizem do mercador, do camelô feirante mascate. A origem da palavra camelô é árabe, Khamlat, nome dados aos tecidos comercializados aos berros, em feiras livres, pelos vendedores, e que deu origem ao verbo, em francês, cameloter, vender quinquilharias...
 
O que verdadeiramente me enternece, nesta feirinha, da Praça Santos Dumont, na Gávea, RJ, são as conversas em mosaicos e os objetos que me tocam, afetivamente, que evocam o início ou meados do século XX, a casa de meus avós, tios, pais. Copos; pratos; discos; talheres; bonequinhos; miniaturas; botões de futebol de mesa; tapetes; joias; bijuterias; livros usados; abotoaduras, canetas; mata-borrão; vasos; cálices; etc.. 
 
Ouço vendedor e freguês conversando sobre os detalhes do divórcio de um; encontro fortuito, os dois com aproximadamente 50 a 55 anos. Os feirantes conversam entre si, descuidados dos fregueses, falando mal de quem só olhou e não comprou nada. Arena de bate-papos e confabulações, os objetos quase são pretextos. 
 
De valor, em real, a feirinha pouco oferece. Uma Maria Antonieta lascadinha, um casal de velhinhos toscos, fraturadinhos, me chamam a atenção. Ano passado comprei um pássaro de vidro, avermelhado e manco; no ano retrasado, uma boneca portuguesa, de roupinhas bem sujas. Dessa última flanada, trouxe uma corujinha vermelha e preta, sorumbática, comprada de um senegalês. 
 
Feira-gourmet para os meus olhos. Ela vai se firmando, dizem. Tanta coisa a se ver no Rio...o que faço ali?
 
A gente guarda memórias em fragmentos lascados, inutilmente preciosos; memórias carcomidas pelo esquecimento ou por emendo de novas histórias. Memória é rede articulada, tijolo a tijolo, com o que nos envolveu e nos comprometeu: intensamente. O que é fast me afasta: fast food, fast net. Fast net é neologismo para o que nos leva a consumir (ou ser consumido), sem pensar, sem sentir, superficiais conexões. 
 
Ser capturado pela fast net periga nos fazer perder a capacidade de (re)conhecer a realidade interior indizível, imagética, única e intransferível, de fabricação própria, que nos confere resiliência para não sermos massificados, homogeneizados.
 
Aparência enjoa: frase boa para refletir sobre a fast net. E ainda mais: o tempo gasto (com o quê, ou com quem quer que seja) pode gerar boas e belas novidades para aquele que alcança ver além da aparência. 
 
Reflexão válida para o Dia dos Namorados. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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