O punhal da bestialidade

Por: Everton de Paula

Sou de uma geração que, usualmente, se surpreende com as atuais inovações tecnológicas, científicas e em outras áreas do conhecimento humano. Confesso que Flash Gordon varar o espaço e pousar na Lua era o máximo que imaginário infantil poderia emprestar a um de seus heróis. Em 1969 a imaginação tornava-se realidade.  As ondas culturais, de que tanto fala Tom Chung em seu livro Qualidade começa em mim, demonstram clara e didaticamente que essas ondas evolutivas estão se acelerando cada vez mais. Os computadores e sistemas operacionais já substituíram a maioria das operações diretas das linhas de montagem, por exemplo, bem como as funções burocráticas de controle, como contabilidade, operações de gestão e de controle de RH, e já integram e consolidam todos os sistemas de relatórios de uma organização, numa velocidade que nenhuma equipe humana conseguiria realizar.
 
Já se tornou comum a imagem da criança, do jovem, do adolescente, do adulto em qualquer situação, hora e local na cidade, literalmente grudado a um celular ou algo do gênero.
 
Não é tão fácil quanto parece, para nós, da geração de 1950/60, adaptar-se a tantas quebras de paradigmas, físicas e comportamentais: converso em tempo real com minha filha, que se encontra na Itália, vendo-a pelo monitor de meu computador;  vario de tema: continuo estupefato com a naturalidade com que o STF manda soltar criminosos do mensalão e de outros crimes de colarinho branco, ao mesmo tempo em que mantém atrás das grades o pobre desempregado que roubou uma lata de leite em pó para seu filho que chorava de fome. A banalização do sexo pela TV, via reality shows ou telenovelas, a qualquer horário do dia ou da noite, choca essa geração que flertava em bailes, curtia big bandas, colecionava ídolos, praticava esportes e ainda seguia diretrizes de família. Acreditava-se na família como a célula mater da sociedade. 
 
Assim, minha geração tornou-se refém de tantas inovações contemporâneas, a ponto de se não se adaptar a elas e correr o risco de se marginalizar, não se empregar, ficando, no melhor estilo de Euclides da Cunha, à margem da história.
 
E assim seguimos nós, aprendendo a lidar com novas formas de viver, dia por dia, emprego por emprego, usos e costumes... Mas entendendo perfeitamente que tudo isso faça parte de um cenário progressivo, cultural, nascido da inteligência do homem, muitas vezes a serviço da humanidade, outras vezes contra seus princípios em nome da ciência.
 
Até os 65 anos de idade passei por todas essas inovações, absorvi-as por dever de ofício e sobrevivência social, tolerei-as, admirei algumas, abominei outras, porém continuei firme na minha posição de cidadão ativo, prestativo, colaborador, sinergético. Mas confesso: as imagens levadas aos lares brasileiros proporcionadas pela 19ª parada LGBT em São Paulo, no último domingo,  ultrapassaram todas as cargas de boa vontade no sentido de aceitar, de engolir, de respeitar o hábito alheio.
 
Já estava constrangedor ver mulheres se agarrando sem recato algum nas praças, homens se beijando nos corredores dos shoppings, gays que se elegeram deputados para propor a eliminação, nos documentos oficiais, do gênero (masculino ou feminino). E mais: parlamentares propondo barbaridades como o esfacelamento do núcleo familiar e a liberdade, aos 14 anos de idade, de operação de mudança de sexo, mesmo sem autorização dos pais. Já estava constrangedor, mas tratei logo de agregar essas propostas, usos e costumes no espaço mental reservado às mudanças do novo e “maravilhoso” milênio. Afinal, não gostaria de ser taxado de diferente, de preconceituoso. Sempre respeitei usos e costumes alheios, por mais estranhos que me parecessem. Nunca fui preconceituoso; ex-alunos, colegas, meus escritos, amigos comprovam essa afirmação. Sempre aceitei com naturalidade as diferenças. Respeitei-as e pensei que, assim, também seria respeitado.  
 
Imagino que se criticar essas diferenças, é claro, hão de me condenar aqueles que apontarão outras barbaridades históricas como a Inquisição da Idade Média, ou da venda de indulgências, ou a escravidão, ou a exploração humana sob as mais diversas e cruéis formas... Mas é exatamente sobre isto a que me refiro: naquela época, deve ter sido muito difícil para as raríssimas pessoas de consciência crítica, formada não sei por que meio, aceitar essas modificações. É neste recorte de cenário que me vejo ante as imagens de domingo último. 
 
Mas aqui deixo de empregar termos como ondas culturais, ondas evolutivas, usos e costumes, modificações temporais para usar um só termo: aberração.
 
A atriz Viviani Beleboni, 26, transvestida de Jesus Cristo pregado na cruz, no meio daquela turba transfigurada, junto a outro Cristo transvestido de gay beijando outro homem na boca, entre sangue e espinhos, sensualidade e despudor, quis dizer o quê? Que seu sofrimento como gay era comparável ao sofrimento de Cristo na cruz? 
 
O pressuposto é frágil, porque gays, ao que sugerem, imagino que devem viver o seu carpe diem entre lascívias e exploração dos sentidos pelo sexo, e não um sofrimento comparado ao santo martírio. E aviso: se quiserem me processar por preconceito de qualquer ordem, hão de processar igualmente uma enorme parcela da mídia brasileira e das redes sociais.
 
Que querem eles? Respeito? Reconhecimento?  Como,  se não respeitam os nossos símbolos mais sagrados, mais bem guardados no íntimo de nossas almas?
 
Por que o homossexual tem a imperativa necessidade de se mostrar? Por que, como o hetero ou cidadão comum faz, não reserva seus prazeres e preferências sexuais entre quatro paredes? Parada gay? Isto pressupõe uma parada hetero? Ou pior: pressupõe a queda dramática dos últimos baluartes da moralidade? Caminhamos para onde? E para que o crucifixo como tapa-sexo? Como os organizadores da parada gay tiveram a ideia de contemplar Cristo e orgia num só cenário? Não lembra o filme O Exorcista?
 
Por que a TV preferiu a parada gay em lugar de uma pragmática reportagem sobre a fome no planeta e alternativas de minimização, por exemplo?
 
Os LGBTs, agentes da banalização do sexo e da inversão dos valores morais de toda uma geração (ou várias delas) em nada, absolutamente em nada contribuíram, com suas cores berrantes de arco-íris, para com a civilização contemporânea. Zombaram, cuspiram em nosso rosto. 
 
“Tempora mutantur et nos mutamur in illis”, exclamaria o velho professor de Latim, querendo dizer que o tempo muda e nós com eles.
 
 Meus poucos seis ou sete leitores: os tempos mudaram,  mas minhas convicções morais e religiosas permanecem as mesmas;  elas me proporcionaram força e vigor para trabalhar, amar,  criar família, 4 filhas, gerar dois netos, educar mais de três gerações, aumentar o número de amigos, respeitar usos e costumes alheios, respeitar dogmas e símbolos religiosos de terceiros, nunca me intrometer na vida alheia, nunca estardalhar minhas ideias como as únicas verdadeiras.
 
Não à barbaridade da quebra de ícones católicos.
 
Não às críticas maldosas e irônicas contra os reencarnacionistas.
 
Não às intolerâncias contra a fé que move povos asiáticos.
 
Não ao Cristo tornado gay!
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos. Fundador da Academia Francana de Letras

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