O Centenário do ‘Comércio’ (2)

Por: Chiachiri Filho

Nos anos 80 do século  XIX já havia em Franca um ambiente propício para o aparecimento de um órgão de imprensa. Em 1882 funda-se o “Nono Districto” cujos diretores proprietários eram os portugueses César Augusto Ribeiro e Gaspar da Silva. 
 
As assinaturas anuais (com pagamento à vista) eram de 10$000 (para Franca) e 12$000 (para fora). Também adiantadamente cobravam-se anúncios, editais e demais publicações à razão de 100 réis a linha e 80 réis em caso de repetição.
 
A denominação “Nono Districto” derivava da repartição eleitoral da Província de São Paulo em que os eleitores eram agrupados em “distritos eleitorais” a fim de elegerem os seus representantes, isto é, os deputados, através do chamado voto distrital. Franca era a cidade sede do Nono Distrito Eleitoral.
 
Maçons, abolicionistas e até anticlericais, César Augusto Ribeiro e Gaspar da Silva usaram-se do seu jornal como veículo de suas ideias. Enfrentaram, em oposição, o Reverendo Monsenhor Cândido da Silveira Rosa, vigário da Paróquia, que se defendia e atacava através da Tribuna da Franca e da Justiça.
 
Após César e Gaspar, o “Nono Districto” teve a direção de Guilherme Voss, que sucedeu a João de Faria e, enfim, Fulgêncio d’ Almeida que, em comunicado estampado no jornal de 28 de abril de 1892, dizia o seguinte:
 
 
“Somos forçados ã suspender a publicação da nossa folha por um mez, para aquisição de uma nova typographia, não ficando, porém, os nossos assignantes deste anno prejudicados, pois, ser-lhes-ha descontado o tempo que deixammos de publicá-la.
Por não existir mais a divisão eleitoral - o Nono districto - o nosso jornal sahirá com nova denominação e formato maior...”
 
 
De Nono Districto, o semanário de Fulgêncio de Almeida passa a chamar-se “Cidade da Franca” cuja primeira edição saiu em 11 de julho de 1892 contando no seu corpo diretivo, administrativo e redatorial com o senhores: Dr. Modesto Olímpio, Teixeira Brandão, Dr. Frederico Nascimento Moura, Azarias Ricardo de Sousa e surpreendentemente, o Monsenhor Cândido da Silveira Rosa.
 
Vários jornais francanos ostentaram o título de “Gazeta”. Porém, o mais antigo foi certamente a “Gazeta da Franca” que passou a circular em 1883 sob a direção de José Alfredo Lopes.
 
José Garcia Duarte (o Barão da Franca) e José Teodoro de Melo eram os proprietários do Jornal “A Justiça” que circulou em 10 de fevereiro de 1884 sendo o seu redator político Estevão Leão Bourroul que assinava os seus artigos sob o pseudônimo de “Iskander”. A Justiça era órgão do Partido Conservador cuja gerência estava à cargo de Estevão Marcolino de Figueiredo.
 
O primeiro número de “O Francano” aparece em 5 de julho de 1888. Editado semanalmente, era propriedade de Álvaro Abranches & Irmão. Sua circulação foi interrompida várias vezes e, em cada interrupção, trocavam-se os proprietários e redatores. Em 1905, “O Francano” passa a ser um jornal diário e assim permanece até 1907. 
 
Em 25 de agosto de 1900, a “Tribuna da Franca”.  Passa à direção do jornalista Francisco Cunha, “A Tribuna” procurava se manter equidistante das lutas e paixões políticas reafirmando a sua imparcialidade em suas colunas, artigos e noticiário.
 
É de se realçar a quantidade de periódicos que surgiram em Franca entre as últimas décadas do século XIX e as primeiras do XX. Havia publicações para todos os gostos e tendências. O Círculo Socialista Internacional editava em 1905, o “Primeiro de Maio”. O “Janota” (8 de março de 1903) era um órgão humorístico e literário. A Loja Maçônica “Émile Zola” publicava o “Lowton” (1903). Os espíritas lançaram “Perdão, Amor e Caridade” (1896), “Castigo, Ódio e Egoísmo” (1895) e “Apoteose” (1897). O “Alcaide”, “O Alfinete”, o “Rosa - Chá”, o “Fígaro”, o “Bandolim”, o “Polichinelo”, o “Sonhador”, o “Estudante”, o “Cravo”, o “Tiradentes”, o “Pirilampo”, o “Colibri”, a “Camélia”, a “Estrela Polar” e o “Jasmim” são alguns dos inúmeros jornais que floresceram e feneceram na cidade da Franca.
 
Os jornais que circularam por um período maior de tempo foram: “Nono Districto: 12 anos, O Francano: 10 anos e posteriormente, foi dirigido por Tufi Jorge (até a sua morte), A Justiça, O Correio Popular e a Gazeta da Franca: 3 anos, a Sentinela, Álbum, Bandolim e Alfinete: 2 anos.
 
À exceção do  “Diário da Franca” e de  “O  Francano”, a maioria dos jornais de Franca (à época) circulava semanalmente. Muitos outros apareciam e desapareciam de acordo com os recursos financeiros e as paixões dos seus proprietários.
 
Em 1903, começa a circular o “Diário da Franca”. Se, naqueles tempos a confecção de um jornal semanário já era difícil, muito mais seria a elaboração de uma folha diária composta com os tipos móveis e gravada nas velhas prensas manuais ou de pedal.
 
No expediente do jornal, não figuravam os seus diretores e colaboradores. Dizia-se, simplesmente, que ele era propriedade de uma “Associação” e mais nada. Através da leitura dos seus exemplares (existentes no Arquivo Histórico) descobrimos que o seu gerente era João Lourenço Filho. Sob o pseudônimo de “Arquelino”, escrevia o Dr. Júlio Cardoso, Álvaro Abranches assinava as suas matérias como “Leão D’ Alva”. Também eram seus “redactores” o Dr. João de Faria e o Prof. Sabino Loureiro. Se, em 1882, a assinatura anual do “Nono Districto“ custava 10$000, a do “Diário da Franca” (que só não circulava às segundas-feiras) era de 20$000. Cobrava-se pelas publicações (editais e seção livre) 200 réis por linha. Quanto aos anúncios, o preço seria a combinar. O jornal e a sua tipografia estavam instalados à Rua Moreira César, n. 31 (atual Ouvidor Freire) sendo sua Caixa Postal de n. 35. 
 
A denominação “Diário da Franca” seria restaurada 70 anos após, isto é, em 31 de março de 1973, ocasião em que Luís Carlos Facury, José Edson de Paula Marques (Essinho) e José Martiniano de Oliveira (os dois primeiros egressos do jornal Comércio da Franca) resolveram brindar a cidade com um novo jornal diário. 
 
Em 1 de outubro de 2000 o “Diário” foi transferido para Nicola Luís Japaulo e seu filho Juliano.
 
Em 26 de outubro de 1940, passava a circular o jornal “Diário da Tarde” sob a propriedade e direção de José Chiachiri e Francisco de Andrade Filho (o Chico Adelino). Após um breve período de ausência da sociedade (sendo substituído por Granduque José), Chiachiri volta novamente para ser o seu único proprietário e diretor responsável até 1957 quando assume o seu controle um grupo comandado por Onofre Sebastião Gosuen (então Prefeito de Franca) e Granduque José. Seguem-se vários outros diretores como Mira de Oliveira, Octávio Cilurzo, Jorge Chead, João Roberto Correa. O jornal encerra suas atividades em  outubro de 1960. De início, funcionou na Praça Barão da Franca, posteriormente na rua do Comércio e finalmente, na rua General Teles, n.1003.
 
Combativo, corajoso e polêmico, o vespertino sofreu, por várias  vezes, ameaças de “empastelamento”.
 
Sob a direção de Álvaro Abranches, o jornal “O Francano”  foi fundado em  5 de julho de 1888. Posteriormente, foi adquirido pelo jornalista Tufi Jorge. Em 1965, o semanário passa para seu filho, Wiliam Wanderlei Jorge, que o manteve Até  24 de fevereiro de 1966.
 
Na década de 20 (do século passado), surgem dois periódicos de caráter religioso: “o Aviso de Franca” e  “A Nova Era”. 
 
Fundado em 6 de janeiro de 1924, “O Aviso de Franca”, que tinha como diretores Frei Gregório Gil e Dr. Mário de Vilhena, defendia os interesses da  comunidade católica. Mais tarde, foi adquirido pelo Círculo Operário de Franca e teve como diretor até novembro de 1972, o jornalista José Chiachiri (que falecera no dia 8 daquele mesmo mês e ano). Deixou de circular na década de 80 do século XX.
 
“A Nova Era”, órgão de divulgação da doutrina de Alan Kardek, começou a circular em 15 de novembro de 1927. Pontificaram em suas colunas, dentre outros, o Dr. Agnelo Moratto, o Dr. Tomás Novelino, José Russo e Vicente Richinho.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras

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